Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



“A Família Krupp” - “Eine Deutsche Familie” Teil IV - (Reposição)

por Francisco Carita Mata, em 30.01.16

Série Alemã na RTP 2

Ponto Prévio:

Finalmente, consegui retomar a escrita sobre esta série.

 

emblema in. blog.equinux.com

 

Teil/Episódio

IV

 

Tempos Sombrios/ Ventos de Mudança

 

E as dúvidas foram esclarecidas. Houve mesmo um Episódio IV, no passado domingo, 24 de Janeiro. O último da mini série, agora em reposição e que eu não vira na 1ª apresentação em Outubro. E, apesar de haver eleições presidenciais e de ter acompanhado parte do programa respetivo, ainda assim optei por visualizar este quarto e derradeiro episódio.

Muito lúgubre, este episódio final. Afinal aconteceram as mortes dos personagens e narradores principais.

Bertha, em 1957. Tendo o marido Gustav morrido em 1950.

A narrativa prolongar-se-ia ainda pelos anos sessenta, até à morte de Alfried, em 1967.

Este episódio quatro relata os principais acontecimentos destes personagens e da Firma, nos anos pós Guerra até à morte de Alfried, o segundo narrador.

 

O tempo narrado vai continuando, centrado no presente, 1957, protagonizado por Bertha, doente, no seu quarto. Que aguarda ansiosamente a vinda do filho Alfried.

Voltamos a este ponto, porque ele é fulcral no enredo. Porque Bertha adoeceu (AVC), sequencialmente à discussão com o filho primogénito, Alfried, herdeiro e dono legítimo da Firma. E precisa, urgentemente, que ele se lhe apresente...

Este foi preso, no final da II Grande Guerra, em 1945. Imagens que finalizaram o 3º episódio. Em 1948, foi julgado em Nuremberga, como criminoso de guerra, condenado a doze anos de prisão e foi-lhe confiscado o património.

Assim se esclarece a minha dúvida sobre a questão dessa condição de “criminosos de guerra”.

O pai Gustav não foi condenado devido à idade e estado de saúde. Morreria em 1950, junto da mulher, Bertha, no castelo dos Alpes Austríacos, para onde se retiraram no final da Guerra.

Ele e o filho já não se veriam, estando este ainda na prisão, aonde a mãe o foi visitar. Informou-o da situação da empresa, do que dela restava, que o irmão Berthold administrava.

Alfried, proprietário da Krupp, como criminoso de guerra da Família, perdera tudo. Mas tentavam reaver todo o património, através de advogados e processos judiciais.

 

Neste episódio, as desavenças, tricas, conflitos explícitos ou recalcados, entre os membros da Família, expressam-se na narrativa.

No centro, Alfried, como dono da Firma. Que a Família e a Firma fundem-se e interpenetram-se. Confundem-se!

Além do conflito entre Alfried e a Mãe, que o aguarda ansiosa..., mais adiante veremos para quê..., também são apresentados os conflitos entre Alfried e o irmão Berthold, que tomou conta do que restava da Firma e das empresas, enquanto aquele esteve na prisão e que, regressado antecipadamente ao previsto, 1951, Berthold não quer largar mão da respetiva gestão. Apesar da posse jurídica ainda ser do irmão mais velho, na sequência da célebre Lei Krupp, pela qual os bens da firma lhe foram transmitidos por herança direta, em 1943, por decisão de Hitler, sem pagamento a imposto sucessório!

As desavenças com Harald também já vinham sendo reveladas, embora menos fortes que as manifestadas com Berthold. Mais centradas no facto de aquele, não sendo primogénito, se sentir e ser preterido, em todos os aspetos, nomeadamente no afeto maternal.

alfried arndt in. zdf-enterprises.de.jpg

 

O desentendimento com o filho Arndt é quase total, pela sua “personalidade extravagante”, a sua não aceitação, a rejeição mútua, o abandono a que este foi sujeito, pelo divórcio forçado da mãe, em 1941, que o criou.

Só que o filho é o herdeiro legítimo da Firma, e será a ele que os direitos sucessórios serão, em princípio, transmitidos. Filho que não manifestava qualquer apetência para essas funções empresariais.

 

Alfried saíra da prisão muito antes do tempo previsto. Em 1951, apenas seis anos após ter entrado, quando se previra doze anos. Saiu escondido numa carrinha, que havia repórteres e fotógrafos à porta da prisão e houve que ludibriá-los.

Arranjou-se logo com uma namorada, Vera, seria a célebre do baile em Munique, nos dourados anos trinta, antes da eclosão da Guerra? Deram uma volta ao mundo, para espairecerem, que seis anos de reclusão, mereciam um ano sabático de diversão.

Ao regressar, em 1952, quis voltar a assumir os destinos da Firma. Só que o irmão Berthold dela tomara conta nos anos de ausência e não queria deixar esse poder do pé para a mão.

 

A situação da firma é outra das temáticas do enredo. A sua situação patrimonial. Os direitos de propriedade. A sua reconstrução. A sua colocação em funcionamento. O tipo de produção a desenvolver, o fabrico de armas, sempre altamente rentável, foi uma das hipóteses equacionadas, apesar da proibição. O financiamento a obter para a realização dos investimentos. A sujeição ou não às leis condicionantes do seu funcionamento impostas pelos aliados. O tipo de propriedade e a definição do proprietário. A situação da transmissão da herança ao filho de Alfried, Arndt. O imposto sucessório a pagar, caso esta situação se concretizasse. Desta situação haviam sido isentos, no início do século, pelo Kaiser, quando a herança transitou para Bertha e, em 1943, Hitler também os isentou, quando a propriedade passou para Alfried. Em 1957, não havia ninguém com poder discricionário na Alemanha para poder decidir tal situação.

Havia que equacionar outra solução para a Firma.

Muitas situações mudariam na política alemã e ocidental. A correlação de forças entre os vários intervenientes na Guerra e os respetivos papéis, alterou-se. Os parceiros circunstanciais na derrota alemã, Aliados e União Soviética, eram agora inimigos. A Alemanha dividida entre zonas de influência. A génese da “Guerra Fria”. Sempre a Guerra! Que o Ser Humano não aprende!

 

Bertha in. tv.orf.at.jpg

 

Neste episódio houve momentos cruciais que importa relembrar.

 

A visita do neto Arndt à avó Bertha, no leito, que não seria de morte, que ela não era mulher para se deixar morrer na cama. Estava com uma enxaqueca!

Que não, não era enxaqueca, respondeu-lhe o neto, que a confrontou com o facto de ela ter oferecido milhões à mãe, para os deixar e ao filho, criança, que ficaria entregue à Família. O que sabemos Anneliese, a mãe, não aceitou, acabando por se divorciar, em 1941, mas levando a criança, que criou. Bem? Mal? O que é bem ou mal?, por vezes depende dos pontos de vista...

E Arndt além de a desmentir que estivesse apenas com uma enxaqueca, também lhe frisou que ela estava para morrer, que ele bem o sentia, e pareceu sentir-se bem ao dizer isto, que amor nele não havia. E abalou. E a avó bem o chamou, bem lhe pediu que voltasse, que não precisava ter medo dela, uma velha mulher, mas era tarde... Tarde demais para ambos!

 

E esta visita surpresa do neto, inesperada, mas que teria feito bem a Bertha se tivera tido outro desfecho, antecedeu a do filho, tão aguardada, desejada e necessária na estruturação narrativa. E, finalmente, após outros enlaces e desenlaces narrativos, alternando no tempo narrado, e nos assuntos abordados, surgiu o filho primogénito em cena, a visitar a Mãe!

E aí percebemos a urgência dessa visita. Porque tanto Bertha desejava que o filho chegasse.

Bertha agradeceu-lhe por ter vindo e, por favor, pediu-lhe que a perdoasse. Perdoa-me. Alfried, perdoa-me.

Já não precisas de continuares a seres forte, Mãe.

E assim, Bertha, perdoada pelo filho, poderia partir em Paz com a sua consciência, que ela sabia que o momento da Morte se aproximava. E aqui, nesta cena, podemos também observar o arrependimento de Bertha, pelo menos relativamente ao Filho. Algo que eu também questionara em relato anterior se aconteceria. E aconteceu! Não direi que “mais vale tarde...”, porque contar um conto é mesmo assim. Os acontecimentos cruciais mais aguardados são guardados para o fim... Foram momentos sublimes de redenção, este encontro entre Mãe e Filho, que a Música, sempre a Música!, sublinhou com pássaros a cantarem no jardim!

 

E a Morte aconteceria, que a morte chega sempre. Não sem que, antes, Bertha, erguendo-se do leito, com dificuldade, se fosse olhar uma última vez, no espelho, de corpo inteiro. E nele se espelhasse a sua Alma e toda a narrativa, e ao olhar-se, ela se visse e olhasse e revisse tudo o que nos contara. E ao virar-se, que ela já se vira e se olhara, se mostrara, mostrando-se-nos, se revelara, revelando-se-nos, na sua história, que também fora História; da sua família, que fora a Família; da sua firma, que fora a Firma; da sua Alemanha, (ou Alemanhas?!), ela, ao virar-se, encontrou finalmente a Morte, que a esperava após esse derradeiro Olhar!

Caiu. E, deste modo, caindo, morreu!

 

E a narrativa podia até ficar por aqui. Fora Filme, melhor até, Teatro, e não ficaria mal tal desfecho. A Morte de Bertha, a heroína principal.

 

Mas talvez Bertha tivesse sido, neste enredo, apenas uma das narradoras da história que foi História.

 

E esta história inicialmente centrada em 1957, como presente, também evoluiu no futuro, que passou a presente. E essa História, agora, aos nossos olhos, é já tudo Passado.

 

E a história que nos foi contada por Bertha, por Alfried, e pelo realizador e argumentista (?), ainda se focalizou em momentos de charneira, que saltei no meu estoriar.

 

Em 1952, na sede da Krupp, o reassumir de funções por Alfried, ainda possuído de sonhos megalómanos de devolver todo o antigo esplendor à Firma.

Mais tarde, em Hamburgo, em negociações com Berthold Beitz, conhecido especialista industrial, para este o ajudar a reestruturar a Firma. Beitz teria futuramente um papel crucial nessa função até à morte de Alfried, 1967, e, após a sua morte, nas mudanças múltiplas e diversas operadas na Firma até à sua estrutura organizativa enquanto Fundação. Papel e função que ele desempenhou, inclusive negociando com o filho de Alfried, Arndt, que renunciou aos seus direitos sucessórios, em troco de uma avultada renda vitalícia anual.

Desta forma, estruturando a empresa numa sociedade por ações e a firma numa fundação, sequencialmente à renúncia de Arndt, alterando completamente a sua orgânica jurídica, entre outros aspetos, evitaram o pagamento de imposto sucessório, que, dado o valor patrimonial das empresas, seria uma enormidade.

Que isto é assim, os ricos quanto mais ricos são, mais o querem ser. E, obviamente, custar-lhes-ia imenso pagar uma conta enorme que reverteria para o Estado e, supostamente, para os cidadãos. Mas qualquer cidadão quando transmite uma pequena herança pagará os respetivos impostos. Mas proporcionalmente a quem custará mais?!

Mas isso pouco importa na narrativa, apenas nesta estória que eu vos conto.

E ainda relativamente a Beitz, convém mencionar que sendo ele alemão e também industrial, ele foi um dos alemães, que, durante a Guerra, ajudaram muitos dos perseguidos pelos nazis, ele e a sua mulher, pondo-se em risco a si e a toda a sua família. Paradoxalmente, ou precisamente por isso, Alfried foi buscá-lo para seu coadjutor e conselheiro na Firma, onde desempenhou papel fulcral.

Relativamente aos papéis desempenhados durante e após a Guerra, também o realizador nos alertou para o facto de que famílias, que haviam sido perseguidas, martirizadas e “usadas” como força de trabalho escravo nas empresas da Krupp, exigiram indemnizações e que Alfried se prontificou a pagar.

 

A transformação da estrutura jurídica da Firma seria concluída em 1967, e teve direito a anúncio à Comunicação Social, com destaque para a Imprensa, ainda o veículo comunicacional predominante na época. Realça-se este aspeto, para relevar a importância crescente que os Media foram adquirindo gradualmente na nossa Sociedade, até atingirem o Poder que atualmente detêm. E que já faz parte da nossa vivência pessoal! Da nossa história!

 

Voltando à história de Alfried, este morreria em 1967, sentado, julgo que no escritório da sua casa e só, como praticamente sempre viveu.

Em fundo, na Música, ouviam-se um solo de trompete e um piano, num dueto lastimoso.

 

O episódio terminaria com Arndt, na sua Villa Blad Tagri, de Marraquexe, atendendo o telefonema de Beitz, informando-o da morte do progenitor. E, sequencialmente, na sua viagem de descapotável, embrenhando-se no árido deserto; de óculos escuros, não sem antes ter limpo o rímel, esborratado de alguma lágrima que vertera pelo pai. Final de dinastia e término de episódio!

 

Pelo meio, ocorreram mais alguns pormenores narrativos, na perspetiva dos vários narradores, sobre si mesmos ou sobre outros personagens, que fui omitindo na minha estória narradora.

Perdoem-se-me esses lapsos.

 

Que a estória já vai longa e tarda a respetiva publicação, que deveria ter ocorrido logo no início da semana. Afazeres...

 

E, Obrigado, se me conseguiu Ler até Aqui!

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:29



Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Temas

Poesia

Arquivos

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Pesquisar

Pesquisar no Blog