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“Le Cose Belle” / “As coisas boas” – Filme documental Italiano

por Francisco Carita Mata, em 08.07.16

“Festa do Cinema Italiano”

Fórum Romeu Correia - Almada

 

le Cose Belle in. mundodocinema.com

 

“As coisa boas da vida, os sonhos, o que desejavam ser quando fossem grandes...”

Algumas das proposições colocadas a crianças a entrarem na puberdade, num estudo feito em bairros pobres da cidade de Nápoles, em finais dos anos noventa: 1999(?).

Feita essa observação inicial voltaram as mesmas pessoas a serem estudadas, passados mais de dez anos, já na segunda década do terceiro milénio, (2013?), personagens – atores da vida real, agora no início da idade adulta.

De entre os vários entrevistados, escolheram os realizadores deste filme documental, Agostino Ferrante e Giovanni Piperno, quatro, para testificarem o estudo efetuado para este documentário, definindo-os como protagonistas: Fábio, Adele, Silvana e Enzo.

 

Dizem os especalistas das problemáticas da “mobilidade social” que o “grupo social de origem” de um indivíduo condiciona o seu estatuto social futuro e marca a sua trajetória. Que normalmente indivíduos com baixos níveis de rendimento e de escolaridade têm as suas possibilidades de ascensão social diminuídas.

E é precisamente também o que se verifica na trajetória social e no percurso destes quatro “personagens” reais.

 

Nos finais da meninice, os sonhos e projetos, passavam por ser: cantor, futebolista, modelo, dançarina. E não passaram disso, de sonhos.

A escola arredia para todos.

A realidade mostrou-se cruel e a vida continuou madrasta.

Nascendo e vivendo em meios pobres, bairros desencantados, vidas desestruturadas, a rejeição da Escola, alguns no limiar ou no meio da pequena criminalidade, a idade adulta não se manifestou mais redentora.

E ainda que a “Crise” possa ser sempre considerada causadora da desgraça, da falta de perspetivas e de futuro, certo é que o estigma já lá estava, no meio social de nascença.

Os pobres tendem a continuar a ser pobres, ainda que nos custe e doa termos de admitir isso.

E quando não cumprem a Escola, que sendo um direito é também um dever, mais portas se fecham.

Por vezes e para alguns abrem-se portas de libertação, de que o futebol é um escaparate.

(Mas, para um Ronaldo, um Ricardo Quaresma, um Renato, quantos ronaldos, quantos quaresmas, quantos renatos ficam pelo caminho, nas margens transgressoras e cruéis da vida?)

 

É este desencanto, este desalento, esta falta de esperança, que o documentário nos mostra.

 

Tão mais difícil é essa desejada ascensão social, quando a construção do futuro e a idealização de projetos passam pela rejeição da Escola, pela ausência, pela fuga da mesma.

E dizem também os especialistas que a progressão nos níveis de escolaridade é também um meio e uma possibilidade de melhorar a sua condição social.

 

E o futuro daqueles jovens pouco progride face ao passado.

Melhoram materialmente as condições de vida, (melhoram?), pelo menos nalguns sinais. O acesso às novas tecnologias é já uma corriqueirice, ter um telemóvel topo de gama quem não tem? Nem gente é, se o não tiver!

Aliás esse é um dos modos de vida corriqueiros: calcorrear bairros e ruelas sujas, a vender pacotes redentores de acesso telefónico: Tele 2, Vodafone. As mesmas multinacionais, vendendo os mesmos pretensos sonhos ou soporíferos para sonhar. Os mesmos produtos, idênticos serviços, angariadores semelhantes, jovens desalentados, tocando campainhas e ouvindo negas, quando não más criações. Igual por todo o lado: globalização na sua pior faceta.

Este era o trabalho de Enzo, a criança púbere que cantava com o pai nos restaurantes à procura de umas liras ou de uns dólares, de algum americano transviado de Pompeia. (Ou de uns euros, não sei se em 99 já havia o euro!)

Em adulto recusava-se a cantar. Perdera a confiança em si mesmo.

Finalmente, e já após as filmagens terminadas, os realizadores tê-lo-ão convencido a aventurar-se novamente na cantoria e foi gratificante ouvi-lo e vê-lo interpretar uma das suas cançonetas tradicionais, enquanto o genérico do filme nos era apresentado.

Verdadeiramente esse foi o único momento redentor do filme documental. O único sinal de Esperança!

(E é interessante constatar que o público, que já se havia levantado para sair, a grande maioria dos espetadores nunca fica para ver o genérico dos filmes; algum público, perante a audição de Enzo, reteve-se na coxia e aí, de pé, concluiu a visualização do filme, ouvindo o jovem a cantar!)

 

E os outros três protagonistas?!

 

Das raparigas não as consigo distinguir pelo nome.

 

Uma delas, já mãe, com o companheiro mais uma vez na prisão. E agora também um irmão.

Cumpria os rituais de mãe, dona de casa e mulher em visita a familiares presos.

 

A outra rapariga, a que em miúda já ensaiava a dança no varão, pois é disso que agora faz profissão em part-time.

 

O outro rapaz vive ainda com a mãe, arredio da vida; e do trabalho, a fugir como diabo da cruz. Marcado pela ausência do irmão, morto, (colateralmente?), numa rixa de gangues controladores do mundo do crime napolitano e mundial.

Enzo tenta convencê-lo a trabalhar na venda dos pacotes telefónicos, ainda andou algum tempo nesse bate porta, janela e varanda, a angariar subscritores, mas acaba por enfastiar-se, que é “trabalho de escravo”.

 

Cenários reais, fachadas, corredores e casas dos bairros sociais, uns velhos, outros mais recentes, mas a mesma imagem de degradação e miséria. A célebre autoestrada, megalómana e prepotente, sobrevoando e espezinhando, em viaduto, por cima da cidade, dos bairros da pobreza e exclusão, lembrando também as cenas marcantes da série “Gomorra”.

Por vezes, imagens da baía, evasão e entretenimento (?) e do porto e os seus “negócios” portuários.

Marcante a imagem dos vulcões.

Em pano de fundo, sempre, o Vesúvio, a lembrar o passado, Pompeia, e a eventualidade e iminência de uma futura tragédia. Não sabemos é quando ocorrerá!

 

E é disto que trata o filme documentário: pobreza, exclusão social, desalento, desesperança, iminência de tragédia, conformismo e aceitação do destino, sem Destino!

 

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publicado às 10:36



Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

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