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MAIO...

por Francisco Carita Mata, em 07.05.15

 Maio...

Foto0437. maio. Foto de DAPL. 2014 jpg

 

Foto de D.A.P.L. 2014

A vida, e especificamente a vida em sociedade, para além do plano de realidade e materialidade em que se contextualiza, está também normalmente enquadrada no plano do simbólico. Não só do que realmente é, mas também do que significa ou que se pretende que signifique a nível social.

Desde tempos remotos que o Homem, a Humanidade, procura encontrar e atribuir significado(s) à existência diária, à(s) rotina(s) do dia a dia. Ao longo dos milénios, o Homem foi deixando marcas desses significados ou da procura/busca de significação para a sua existência.

Os múltiplos e variados monumentos megalíticos deixados por culturas milenares, as pinturas rupestres atestando vivências de há milhares de anos, são alguns dos exemplos materiais mais antigos dessa busca de significação para a existência e rotinas diárias.

As várias culturas dominantes, ao sobreporem-se sobre as anteriores, vão incorporando conceitos dessas mesmas culturas “dominadas”. Os romanos incorporaram elementos de cultos antigos, nomeadamente na Península Ibérica. O Cristianismo teve idêntica atitude, cristianizando/sacralizando os dias, os lugares, as festividades, os cultos romanos e pré-romanos, integrando-os num contexto cristão. Todos os dias foram santificados. Todos são dedicados, pelo menos a um santo. Os dias mais “santificados”, habitualmente, têm subjacentes outros cultos mais antigos, dias e noites que já eram significativamente importantes em culturas mais ancestrais. E esse simbolismo, apesar de não explícito atualmente, está muitas vezes implícito, digamos, num “inconsciente coletivo”, apesar de não consciencializado na prática diária.

Todos os meses têm os seus simbolismos, uns mais recentes, outros mais antigos. E sempre as sociedades, no seu evoluir e fluir constantes, vão “construindo” datas, dias, a que vão atribuindo significados e significações mais ou menos duradoiras, mais ou menos perecíveis e voláteis. A sociedade atual, caraterizada essencialmente pela materialidade, pela volatilidade, mobilidade e mudança e pelo consumismo, traço dominante da nossa sociedade atual, de um tempo ainda relativamente recente, tem marcado os dias, cada dia como “um dia especial”. Hoje é “DIA de…”

Hoje, e vi nos blogues, é “Dia do Silêncio”… Seria uma oportunidade para estarmos, hoje pelo menos, um pouco mais calados. E a Comunicação é, por vezes, tão “ruidosa”!…

Mas foi precisamente hoje, “Dia do Silêncio” que mais me apeteceu falar, melhor, escrever, eu que tenho andado arredio da escrita, também dedicado a outros afazeres e também ao descanso.

Mas falava de MAIO

Maio, mês das “Maias”, do “Maio”, dos “Maios”. No e do “1º De Maio”.

Maio também incorpora o “Dia da Mãe” e também tem outros dias de nomeada, nomeadamente no plano religioso. É também o “Mês de Maria”… O treze de Maio. Também já foi de comemorar o “28 de Maio”… Fez parte da nossa História… Também, neste mês, quando, no campo, os nossos progenitores trabalhavam de sol a sol, era também, no primeiro de Maio, o 1º dia de sesta. Alguém saberá o que é isso, excetuando um ex Presidente da República, que ainda continua por aí a “dizer das suas”?! Talvez precisamente por causa da sesta…

E numa época em que tanto nos preocupamos com a saúde, também é "Mês do Coração". E dia doze, "Dia do Enfermeiro". (...) Também se comemora o "Dia Internacional da Família" e o "Dia internacional dos Museus".

E "Dia da Espiga", Quinta Feira da Ascensão...

 

Enfim... Voltando ao início...

O Dia primeiro de Maio é um dia de muitos e antigos significados. Uma das significações mais recentes associa-se às lutas dos trabalhadores por melhores e mais dignas condições de trabalho e de vida. A partir das lutas operárias do século XIX, continuadas no século XX. Pelas Américas, pelas Europas…

Em Portugal, antes de 1974, era de luta clandestina, era reprimido comemorar esse dia. Não era permitido de festejar. Mas era uma aspiração a que o fosse.

O primeiro “1º de Maio” em Liberdade, em 1974, foi um dia de luta, mas também de festa, de fraternidade. Passou a ser feriado nacional. Posteriormente, os tempos foram mudando. Ainda que seja feriado, em muitos contextos socio-profissionais deixou de o ser. “…Todo o mundo é composto de mudança…” nem sempre para melhor.

Há setores que se justifica, em que é imprescindível que os funcionários trabalhem, ou pelo menos alguns deles, de modo a assegurarem os serviços fundamentais. Hospitais, por ex.

Mas há outros que é completamente desnecessário, ou pelo menos é prescindível. Por ex., haverá alguma necessidade imperiosa para que as grandes superfícies comerciais estejam abertas no 1º de Maio?! Mas é isso que acontece. Uma conhecida superfície comercial, que dispensa que a nomeie, pois não me paga nem precisa que eu faça publicidade não só abre, como faz promoções excecionais. Há dois anos foi uma verdadeira loucura.

Este ano os sindicatos do setor programaram greve, e esta era uma greve inteiramente justificável, diga-se. Mas segundo depreendi, pelo menos de acordo com o que observei no supermercado que me fica mais perto, a adesão terá sido pouca. Estava cheio de gente a comprar e com bastante pessoal a trabalhar.

Então questiono-me sobre o que é que representa, hoje, o 1º de Maio?!

Continuam a ser promovidas manifestações mais ou menos festivas, mais ou menos de lutas…

Mas o Dinheiro que rege as nossas sociedades, o Consumismo que nos devora a todos e nos consome na nossa febre de consumir, determina o nosso modo de viver, rege os nossos comportamentos, condiciona as nossas atitudes, superintende os nossos valores. E somos todos escravos do consumo.

Será, agora, o 1º de Maio mais um dia para dedicarmos à veneração do “Deus Dinheiro”, para festejarmos numa das “Catedrais do Consumo”?

Outros significados, diversas significações, diferentes simbolismos.

Esperemos que, um dia… não tenhamos saudades do Feriado do 1º De Maio!

 

Foto0428. Flores de Maio. D.A.P.L. 2014 jpg

 Foto de D.A.P.L. 2014

 

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publicado às 23:10



Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

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