Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Diálogo através duma Máquina Fotográfica...

Diálogo através duma máquina fotográfica

A luz... e os olhos

 

A luz, ferindo a vista, reflecte-se das paredes brancas, brancas paredes, cortadas pelos rodapés azul-ferrete, amarelo-ocre, castanho-grená, cinza, branco simples e totalmente.

E a luz sempre. Forte, intensa, traz-nos semi-cerrando os olhos.

 

Nas ruas, calçada irregular e gasta de solas, ferraduras, rodas ferradas, pés descalços e agora a borracha que nela também se gasta, não há vivalma.

 

À porta, a uma porta, uma velha, viúva, assomando-se.

De preto vestida, como se toda a luz que se espraia das casas, dumas frontarias para as outras, a ela esteja destinada. A luz e o calor que o preto absorve inteiramente.

 

A cara e o pescoço (do corpo não aparece mais nada, excepto as mãos) são uma paisagem gretada de rios, vales profundos e secos da erosão do tempo, pele escura de muitos sóis e luas, de marés nunca vistas, que o mar fica muito além do horizonte, perdendo-se a vista no azul, fusão de céu e terra. Terra, que nem no mar, sentindo periodicamente os efeitos da lua, das luas, da sua força gravitacional, expelidora e contractora.

 

Ganhando confiança, saiu da soleira da porta, pareceu amanhar as flores num canteiro de pedras sobrepostas, encostado à parede da frontaria, com uns craveiros, begónias, manjericos, tudo tapado por uma rede de capoeira. Para as vacas não comerem quando, à tarde, regressam do campo para a ordenha no estábulo.

 

Fez-se à fotografia. Compôs um sorriso, o melhor que pôde, numa boca descarnada, há muito sem dentes. Perdidos que foram nos toucinhos, pão, sardinhas, fio de azeite, azeitonas, café de borras, higiene dentária desconhecida de pepsodentes branqueantes e idas ao dentista.

 

Arranjou o lenço preto na cabeça, escondendo uns fios de brancos que assomavam sobre a testa e as orelhas. Ajeitou a blusa e a saia, ainda se interrogou, olhando, se havia de tirar o avental. Deixou-o ficar. Encostou-se à soleira, soergueu o peito, que terá tido seios firmes, embora não sabendo nunca o que é ‘soutien’, mas terá sabido de mãos carinhosas, calosas embora, mas carentes de desejos, percorrendo montes e vales, após largarem a rabicha do arado por vales e montes.

Instintivamente pousou as mãos sobre o baixo-ventre uma a segurar a outra. Que isto das mãos a gente nunca sabe o que lhes fazer nestas coisas. E as mãos fazem cada coisa e tanta cousa! Sòmente paradas não sabem estar.

 

E só agora reparo nos olhos! Pretos, expressão de moiras que ficaram perdidas na planura. Sem sombras. Que não há sombras a esta hora, nem nestas horas. Estão apenas suspensas dos telhados de canudo, a meio caminho do chão, nas duas frontarias. Que o sol está entre cá e lá, no trajecto de todos os dias, no ponto mais alto do dia, a meio.

 

E ficamos nos olhos, cheios de vida, brilhantes de entrega, para uma foto ao meio dia, numa rua antiga duma Aldeia, perdida na planície.

 

Notas (incompletas) sobre o Texto:

Neste texto mantem-se a ortografia usada quando foi escrito, na década de 80.

Está publicado em Boletim Cultural Nº 17 do CNAP - Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Julho 1992.

Foi premiado em dois Jogos Florais:

  • 2º Prémio nos 2ºs Jogos Florais da “Alma Alentejana”, Almada, 2002.
  • 1º Prémio em Jogos Florais de Associação de Amigos de Montargil.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D