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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Trabalhos de e pós férias... Pisa - Poemas

Para quem apanhou conchas na praia...

 

Foto original de D.A.P.L. .jpg

 

 

SOMOS MAR!

 

Trazemos em nós um Mar.

 

Corre o mar nas nossas veias. Nos percorre, nos irriga o corpo, os neurónios, os sentidos!

 

Nas nossas costas batem ondas. Quebram-se aos nossos pés. Marulham aos nossos ouvidos.

 

Sabe-nos o sangue a sal.

 

Cheiram-nos os cabelos a maresia.

 

Há em nós o apelo do Mar O chamamento donde proviemos O Início de que nascemos.

 

O mar nos traça os contornos, as formas, as enseadas, as falésias, os cabos e promontórios.

 

Faz correr os nossos rios!

 

Somos um mar circulando na Terra.

 

Somos Água, água mineralizada. Água do Mar.

 

Dois átomos de hidrogénio. E um de oxigénio. E cloreto… De sódio! E…

 

Somos água principalmente. Percentualmente.

 

Quase somos água. Quase! H2O + ClNa + … + …

 

Somos Vida. Do Mar Vinda!

 

Do Mar

 

Cais da Saudade

Locais Pitorescos do Alentejo!

Locais pitorescos de Aldeia da Mata

 

Foto original d D.A.P.L. Junho 2015.jpg

 

E porque temos estado a “postar” sobre atividades campestres, ainda que em meio urbano, vamos apresentar alguns aspetos peculiares e extremamente interessantes sobre algumas paisagens rurais de Aldeia da Mata.

 

Foto original de D.A.P.L. Junho 2015. jpg

 

Esta localidade do Norte Alentejano tem alguns monumentos e paisagens que merecem ser devidamente valorizados. As pessoas conhecedoras atribuir-lhes-ão o devido valor, mas muita gente não conhecerá…

Alguns monumentos serão mais destacáveis, nomeadamente dado o seu simbolismo e antiguidade, outros mais singelos e modestos, sem deixarem de ser interessantes. Uns serão mais significativos, no contexto atual, outros tê-lo-ão sido em tempos imemoriais.

De todos, num enquadramento cultural mais vasto, espacial e temporalmente, o mais significativo, também porque de maior antiguidade, será talvez a Anta do Tapadão.

A Igreja Matriz, num enquadramento cultural diverso e mais recente e, de entre os monumentos ainda em funcionamento, face aos objetivos para que foi fundada, também se destaca.

Todos estes aspetos se relativizam face ao contexto em que se inserem, no espaço e tempo próprios. Não se pretendem comparações com outros objetos de análise, de outras aldeias, vilas ou cidades. Falamos do que temos e como temos, tão somente!

 

De entre os monumentos que temos e também dos lugares e paisagens em que nos enquadramos, alguns são deveras interessantes.

 

Foto original de D.A.P.L.. Junho 2015jpg

 

Mais ou menos modestas, sem deixarem de ter interesse e valor, destacaria, por ex., o conjunto de fontes, de que algumas cumprem cabalmente a sua função debitando água agradável e fresca, todo o ano. Mesmo nos verões mais quentes e secos. Este ano não sei… Choveu quase nada!

Destas fontes uma se destaca entre todas. Primeiramente pela sua função primordial: a água. Será, indubitavelmente, a melhor água de entre a das diversas fontes.

 

Foto original de D.A.P.l. Junho 2015.jpg

 

Também é dotada de alguma relativa monumentalidade, na sua singeleza, de obra popular. Possui um evidente enquadramento paisagístico que a valoriza, de fráguas alcantiladas, de uma ribeira que a isola da povoação, mas a que uma ponte certamente centenária lhe permite aceder. Os penhascos, a vegetação autóctone, apesar da acácia australiana que teima em persistir e a ponte, talvez romana (?), talvez, tornam-na num passeio apetecível, apesar de atualmente pouco procurada.

 

Foto original de D.A.P.L. Junho 2015.jpg

 

Pois falo precisamente da Fonte do Salto e da Ponte do Salto.

 

Foto original de D.A.P.L Junho 2015.jpg

 

Acede-se a ela por um caminho que durante séculos terá sido via de transporte importante para pessoas, mercadorias e animais. Atualmente até de carro.

Recentemente, por incumbência da Junta de Freguesia, foi valorizada pela limpeza da arca da água que tem na parte superior e embelezada, qual noiva, pela pintura a branco e amarelo oca, cores tão características e tradicionais na região.

Merece uma visita!

Um garrafão ou garrafa para trazer e beber água fresquinha e a caminho.

Arriba! Que se faz tarde!

E, a propósito de caminhar…

A organização de uma caminhada em que se proporcionasse a conterrâneos e forasteiros um passeio pelas fontes da Aldeia seria uma boa sugestão. Não propriamente no Verão, que está muito calor e tudo muito seco, mas na Primavera em que o enquadramento paisagístico é exemplar.

Quem fala em fontes, poderá sugestionar: “Por pontes, passadeiras e fontes…”

 

Foto original de D.A.P.L. Junho 2015.jpg

 

Bem perto da Ribeira do Salto, outro excerto da Ribeira, também agradável, é a Ribeira da Lavandeira, onde existem umas artísticas passadeiras e a que se acede por uma calçada.

Também bastante antiga. 

Foto original de D.A.P.L. Junho 2015.jpg 

 Nota Final:

As fotos são todas originais de D.A.P.L.

 Junho 2015.

 

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Sobre aldea da mata

Questões...

Somos Mar!

 

SOMOS MAR!

 

Trazemos em nós um Mar

Corre o mar nas nossas veias

Nos percorre, nos irriga o corpo

Os neurónios, os sentidos!

 

Nas nossas costas batem ondas

Quebram-se aos nossos pés

Marulham aos nossos ouvidos.

Sabe-nos o sangue a sal

Cheiram-nos os cabelos a maresia.

 

Há em nós o apelo do Mar

O chamamento donde proviemos

O Início de que nascemos.

 

O mar nos traça os contornos

As formas, as enseadas

As falésias, os cabos e promontórios.

Faz correr os nossos rios!

Somos um mar circulando na Terra

Somos Água, água mineralizada.

                             Água do Mar.

Dois átomos de hidrogénio

E um de oxigénio. E cloreto

                               De sódio!

                                         E…

 

Somos água principalmente

                    Percentualmente.

Quase somos água. Quase!

                 H2O + ClNa + … + …

Somos Vida. Do Mar

                            Vinda!

 

 

Escrito em 1986.

Publicado na Revista “Família Cristã”, rubrica “Lugar aos Novos”, Fev. 1988.

 

 

Foto0084.jpg Somos mar! Foto de D.A.P.L.

 

 

Numa Cidade sem Tempo...

 

Numa Cidade sem Tempo

                         Com(Templo)!

 

Contemplo o branco!

Sempre a brancura das paredes a povoar-nos a Memória.

Ressequida a paisagem: tons castanho, creme, ocres, amarelos

De quando em vez, uns verdes (lapsos de pintor)

Vermelhos (lembranças de lutas, de conquistas, violências).

Transversais barras riscam o branco da monocromia:

- Margens dum espaço de rodapé colorido.

 

E o horizonte… a perder de vista!

Sem limite, a terra nos marca o Destino

Nos espraia sem (ha)ver praia.

É ponto de partida e de chegada.

 

Por aqui ficaram muitos Povos

Perderam-se nas searas, na terra fértil.

E sendo perecíveis as sementes, morrendo e nascendo cada ano…

Quiseram intemporizar-se nas paredes, nas pedras que ergueram.

Cantaram hinos em mármores e granitos!

Que o Pão nos sustenta, mas todos-os-dias

Se come, se dorme e… se morre um pouco.

Levantaram-se colunas, menhires erguidos proclamaram

Louvores à Fertilidade, à Deusa – Terra (Mãe – Fecunda)!

E ao Homem, agente transformador (Fecundante!)

E Templos e Igrejas, aos Deuses

Sublimação dos homens, cristalização dos Ideais. Apenas!

Que os Deuses nunca existiram, Além da Imaginação

                                                                            Dos Homens.

 

Nem sem ela, o Céu e o Olimpo.

 

Ficaram as folhas de acanto, petrificadas, nos capitéis coríntios.

 

Em linguagem marmorificada, dizem-nos: 

“ – Antes de os homens existirem à face da Terra

Mesmo antes de a terra o ser

Já nós éramos.

Éramos muito antes do Antes.

Somos muito antes mesmo de serem o que são, as folhas que somos.

Muito antes das Plantas.

Existimos muito antes de nos chamarem o que nos chamam.

 

Só muito Depois vieram os homens.

E vieram muitos e depois muitos mais por nós passaram, até que nos chamassem.

Pedras nos chamaram, calhaus, pedregulhos, pedra rija e outros nomes…

Que esquecemos.

Até que nos dignificaram, chamando-nos mármores.

E Sempre por nós passaram, por muitos e muitos Tempos, os Elementos em nós

Permanecendo imutáveis. Intemporais.

Até que há pouquíssimo tempo passaram uns Homens, de certeza dados à Poesia

Que em nós viram plantas, flores ou somente eles próprios, ou partes suas

Ou as suas partes sublimadas.

E, sendo eles mortais, temporais como as plantas

Quiseram simplesmente eternizar-se, eternizando-se, transformando-se-nos.

 

E, eis-nos contemplando a Cidade dos Homens, deste alto, infinitamente intemporais

Marcando num curto espaço das nossas vidas, como Pedras, a precaridade da vida dos homens

De número tão infinitos, mas tão finitos de Tempo.

 

E os homens, mesmo os que Homens foram, continuaram passando.

 

Chegados e partidos!

 

E nós aqui estamos em capitéis coríntios, sobre colunas graníticas

Formando o Templo.

Sustentando o Céu, que sobre nós se ergue!”

 

E, nesta cidade crescida das lavouras

Do rasgar do ventre criador pelos arados

Dos campos ondulantes de trigais

(Ilusão de mares balouçados pelos ventos)

Lembra-me outra cidade… minguada de terras

Sem arados nem trigais, mas com excesso de águas

Navegando na laguna, transbordando por ciclos.

Afundando-se no berço em que nasceu e prosperou.

 

(Nos Lóios, em painéis de azulejos

Essa arte sublime de portugueses

Corre a vida de Lourenço

Patriarca – santo de Veneza.)

 

Contraste com esta cidade que contemplo

Sempre minguada de águas e terras a perder de vista.

 

Em ambas, a marca do tempo nos lembra

A precaridade da Existência.

 

Se uma se afunda lentamente

O mar fazendo ondas no chão da Catedral

A corrosão do ar salgado leprosando os calcários…

Nesta, não falarei de monumentos construídos, destruídos, reconstruídos…

Lembrarei somente esse macabro achado:

Revestida de ossos, a Capela assim chamada

Nos situa no presente – futuro que recalcamos.

 

E que dizer das praças?!

Nas mais belas praças, lugar de Homens

O sol num céu azul

A luz ferindo a vista

Reflete-se do branco das paredes…

No centro, gotejando, a água das fontes

Corre pura e cristalina.

 

Se na do Geraldo a fonte, de perfeita

“Bien merece ser coronada”.

Na de Moura, um globo, o Mundo

Distribui com parcimónia a água

Pelos quatro pontos cardeais.

 

E por que corrermos mais

Se nesta cidade se resume

A nossa condição maior de Portugueses

O nosso orgulho de Humanidade?

 

Nesta cidade com Templo

De colunas e capitéis coríntios

Não sustentando teto ou abóboda

Erguido apenas ao Sol e à Lua

Coberto de manto azul durante o dia

Ou céu estrelado pela noite…

 

(Exceto quando chove ou está Encoberto

Que nestas pequenas cousas reside

A nossa condição de humanos.

E, nas pequenas coisas do dia-a-dia

Também há muita Poesia!)

 

… Nesta Cidade, dizia…

Ficamos contemplando o Templo

Desenhado sobre fundo branco

E Céu azul.

Esquecido o tempo.

Nesta Cidade sem Tempo!

 

 

 

Escrito em 1987.

Publicado em “Poiesis” – Volume VIII, Editorial Minerva, Dez. 2002.

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Introito

Após a divulgação de cinco poesias relativas ao Alentejo, “viagens no tempo e no espaço” sobre este tema que nos é tão querido, voltamos a divulgar, conforme delineado, um texto em prosa de ficção, uma viagem no Tempo sobre História…

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Todos os dias fazia viagens. Casa trabalho, trabalho casa. Pequenas viagens e apenas simples viagens.

Mas, naquele dia, VIAJOU real(mente). Uma verdadeira VIAGEM.

Num tempomóvel viajou. Uma viagem no Tempo.

Entrou num aparelhómetro semelhante a uma cabine telefónica das antigas. A porta fechou-se automaticamente. Carregou numa manivela… Sentiu-se estremecer por todo o corpo.

Um turbilhão de névoas em espiral… Todo o aparelho abanava, como se estivesse em convulsões.

Parou.

De repente achou-se num espaço e tempo desconhecidos.

 

Era um pátio enorme, cheio de água. Azul, muito azul. No meio, um estrado. Sobre ele uma mulher…

Vestido cor-de-rosa, um grande decote, por onde escorria um líquido. Azul, muito azul.

Entre mãos segurava uma cabeça, cabelo empoado, salpicado de azul.

Reconheceu-a.

Era Maria Antonieta, segurando a própria cabeça, há pouco decapitada.

Só então compreendeu que a água, o líquido azul, era o seu sangue. Azul, muito azul.

Falava. Perguntava.

- “ O meu menino?! O meu menino?!”

- “O menino está bem. Ainda há pouco dormia.” Responderam-lhe, em coro, milhões de mães, angustiadas com os seus próprios filhos.

Tranquilizou-se.

E pondo a cabeça entre um dos braços, apontou. Apontou para cima.

 

Maria Antonieta - Rainha de França - wikipédia

Num céu também azul, muito azul, estava um Sol. Um Sol – deus um Deus – sol. Muito gordo, cada vez mais gordo, uma grande cabeleira empoada, estava. Brilhando, brilhando cada vez mais, resplandecente de ouro, estava Luís XIV, o Rei. O Rei – Sol.

Todo ele era ouro. Barras de ouro, moedas de ouro. Luíses de ouro.

Luís XIV - Rei Sol - Rei de França - wikipédia

Ficou farto. Farto de tanto ouro, de tanto azul. Ouro e azul…

E mergulhou.

Marat - wikipédia

Mergulhou e achou-se numa banheira com Marat, todo ensanguentado.

Mas esse sangue era vermelho. Vermelho de sangue. Sangue de vermelho.

Experimentava, fazia experiências. Consultava manuscritos, equações e fórmulas.

 

Reconheceu a letra. De alguém que andara… há muito!... consigo, no Liceu.

Lavoisier, cientista francês - wikipédia.

Era de Lavoisier.

 

E Marat perguntou qual era a fórmula da água. Esquecera-se. E queria transformar todo aquele sangue em água. Estava farto de tanto sangue.

“H2O”, responderam-lhe milhões e milhões de vozes, de todos os injustiçados que morrem inútil e futilmente, como resultado de todas as atrocidades que os homens cúpidos de ganância e poder cometem contra os próprios irmãos de sangue.

 

E o narrador desta história mergulhou de novo na banheira ou piscina, não sabia… Também estava farto de sangue. Azul e agora vermelho.

E chegou ao fundo. Viu o fundo. E espantou-se!

 

Não era esmaltado, nem branco, nem azul. Não era vulgar, de uma banheira ou piscina normais.

O fundo era humano. Era um homem estendido, formando os contornos de uma banheira ou piscina. Enorme, gigante, espraiando-se por toda a França. Crescendo. Crescendo sempre.

Então compreendeu tudo. As ideias aclararam-se. Fez-se Luz. Mas a paisagem escureceu. Escureceu muito, fazendo-se negra, preta, preta de carvão.

Encheu-se de Terror!

Robespierre - wikipédia

Era Robespierre. Robespierre era o fudo de tudo aquilo.

Guinou. Num golpe de rins, infletiu para cima. Deixou o preto, o vermelho, o azul. Tudo sangue.

Veio à superfície.

 

E de novo foi banhado por todo aquele sol dourado. Daquele gordo, farto de ouro. Que nu, se banhava num cofre cheio de luíses. Luíses de ouro.

 

Notou que o umbigo crescia. Pouco a pouco delineavam-se contornos, formas. Uma forma única, homogénea, humana.

 

Nascia um homem do umbigo do rei. Um homem pequeno. Fardado, calças justinhas ao corpo. (Mas não era freak, não!) Trazia um braço metido no casaco… ou na braguilha, não se apercebeu bem.

 

Ah! Napoleão…

 Bonaparte, nascia do umbigo do Rei – Sol!

Napoleão Bonaparte, imperador francês. wikipédia

 

O Tempomóvel parou. Acabara-se a viagem. Uma luzinha vermelha indicava falta de tempolina, o combustível das viagens no Tempo.

E, subitamente, o narrador regressou ao Real(mente) Presente. Que atualmente também já é Passado.

*******

Viajava, na altura, num comboio de Elvas para Lisboa, quando “escrevi” esta história sobre a História de França e quiçá da Humanidade.

 *******       *******

De Luíses, julgando-se Donos do Sol e de Tudo e de Todos, está o Mundo cheio.

De Robespierres potenciais e factuais está a Humanidade farta, mas eles continuam atuando por aí, agindo de forma cruel e desumana, matando indiscriminadamente, cada vez mais selvaticamente!

E Bonapartes ávidos de Fama, Glória e Poder, cada Potência tem o seu de maior ou menor envergadura! Grave e perigoso se torna quando pretendem extrapolar essas ambições a outros povos, nações, reinos e países… O século XX teve-os bem catastróficos, em maior ou menor escala, conforme os países ou nações que tutelaram!

 

Quanto à viagem inspiradora essa sim é irrepetível, pois cada momento é sempre único “ não é possível um Homem banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio”, citando o filósofo.

E contextualizando a narrativa num plano mais realista e prosaico, há que referir que já não se podem sequer realizar essas simples viagens, tão propícias à evasão, ao devaneio, à reflexão, como eram as viagens de comboio…

Pois, muito prosaicamente, já não circulam comboios de passageiros na Linha de Leste, espaço e tempo em que, em viagem, em movimento, esta história foi surgindo.

Só mesmo viajando no tempo e vogando na imaginação.

 

 

Notas Finais:

Esta história, inspirada na História de França, foi escrita nos inícios da década de 80, julgo que em 1982.

Foi publicada no JL – Jornal de Letras, Nº 212, Ano VI, 28/07/1986, na rubrica “A Prova dos Novos”, sob pseudónimo: “Zé Manel (Mata)”.

O enquadramento da história foi adaptado, nas explicações iniciais e finais. Na versão inicial era ligeiramente diferente. Também o papel e ação do narrador foram modificados.

 

Quando já tenho o tema tratado e organizado para publicação, 4ª feira, 07/Jan., por trágica ironia, tenho conhecimento da ocorrência, na capital francesa, dos bárbaros e desumanos atentados, amplamente noticiados. A barbárie, a crueldade, a insanidade, a insensatez humanas, continuam desenfreadas…assassinando inocentes. Quase todos os dias, pelos mais diversos locais da Terra, a sanha assassina abate-se sobre homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, adultos, indiscriminadamente, civis que nada têm a ver com as guerras que se eternizam pelos mais diversos locais da Terra!

É a 2ª vez que, quando preparo um post para o blog, em que um país é de algum modo mencionado, acontecem situações problemáticas nesse País. Já sucedera relativamente a Timor!

 

De qualquer modo divulgo esta história como tinha projetado, isto é, após a publicação da poesia “Alentejo”, também de 1982 e dos quatro poemas escritos em 1988, sobre quatro dos cinco sentidos, reportando-me a idêntica temática “Alentejo”: “Cores…, Sons…, Cheiros…, Mãos…”. Um 5º tema, versando  “Sabores..”, nunca chegou a ser escrito…

 

Continuo dando seguimento ao projeto idealizado: ir divulgando a poesia já publicada, modalidade sobre que me tenho debruçado mais, intervalando com textos em prosa de ficção também já publicados.

Seguidamente tentarei criar um texto novo sobre uma temática atual…

Aguarde para ler!

 

Uma NOTA FINAL:

No concernente às fotos, e dado o tema versado, foram todas retiradas da net: wikipédia, enciclopédia livre.

As imagens são apenas uma sugestão para os subtemas. O ideal era ter imagens originais diretamente relacionadas…

 

ALENTEJO

Divulgamos hoje o nosso post nº 50. Que é também o 1º trabalho que colocamos em 2015. E, como não podia deixar de ser, pois também é esse o nosso propósito, damos a conhecer neste enquadramento uma poesia sobre o nosso Alentejo.

Este conjunto de vinte e seis quadras foi escrito em 1982, numa época em que trabalhava no Alentejo e resultaram da observação poética da planície transtagana nessa altura. Alguns aspetos ter-se-ão modificado. Atualmente há realidades que, à data, eram ainda ficção científica. De qualquer modo é um flash desse tempo nesse espaço, que nos é tão querido e idealizado.

 

 

 

ALENTEJO

 

Horizontes infinitos

Extensões de montados

Manchas de olivais bonitos

No meio, campos lavrados.

 

Campos a perder de vista

Vista do cimo do monte

Altaneiro como crista.

No vale, a horta e a fonte.

 

Montes quase abandonados

Sem caseiro nem patrão

Pois carros motorizados

A casa trazem o aldeão.

 

Casas de branco caiadas

Barras azuis e amarelas

Cheias de esmero, asseadas

Alegra os olhos vê-las.

 

Rasteiras, bem alinhadas

De quando em vez solarengas

Varandas, janelas bordadas

Casas, nossas avoengas.

 

Chaminés de sol e lua

Portas de cantaria

Abrindo a casa à rua

Dão beleza à frontaria.

 

Ruas de casas juntinhas

Fazem terras afastadas.

De noite é ver as luzinhas

Dar vida à planura, encantadas.

  

De dia banhadas pelo sol

Alegria e tormento

A brancura dum lençol

A secar na planície, ao vento.

 

Do Alentejo aldeias

De gente calma e fagueira

Amiga de trocar ideias

Embora nem sempre à primeira.

 

Gente mais moça abalando

P’ra Lisboa e outras bandas.

Os mais velhos vão ficando

Até que Deus queira, em bolandas.

 

Pela manhã, o Destino

Os leva à soalheira

Aquecer sangue latino

Que já falta companheira.

 

Durante a manhã, as comadres

Dominam as ruas mercando

E estando fora os compadres

Com as amigas vão conversando.

 

À tarde e à noitinha

Após um dia de trabalho

Homens enchem a tendinha

Causa de brigas e ralho.

 

Mas após tanta fadiga

No campo, a maioria

Faz bem beber uma pinga

Dá esquecimento e alegria.

 

Terminar a cavaqueira

Que à janta a mulher chamou.

Esperar sentado à lareira

Que a novela começou.

 

Migas, açorda e mais

Sopa de cachola e tomate

De miolos, gaspacho, é demais

Tanto pão e tanta arte.

 

Hoje não é tanto assim

Comida vai variando.

Borba, Redondo, enfim

Rico tinto acompanhando.

  

Após a janta, o descanso

Que amanhã é de trabalho.

Antes, um breve remanso

Aquecendo-se ao borralho.

 

De manhã o sol levanta

Trabalhador para a jornada.

Dantes a pé, agora espanta

A quem tem motorizada.

 

Lavoura, azeitona e cortiça

São trabalhos desde outrora.

Conforme a época, a liça

Novas culturas agora.

 

O tomate, o girassol

Culturas de regadio.

As barragens são um rol

Mas não chegam p’ró sequio.

 

Os serviços na cidade

Algumas indústrias também.

Desemprego, ansiedade

De quem quer algum vintém.

 

Pau bucho, chifres, cabaças

Argila, pedrinhas e linho

Nelas, flores e sonhos traças

Objetos de amor e carinho.

 

Trabalho feito com as mãos

Na cortiça, ferro ou barro.

Homens de arte, artesãos

Ourives de bilha e tarro.

 

Mas artistas todos são

De pincel ou de trator

Na tela ou terra chão.

Basta trabalhar com amor.

 

Amor que a nós, Homens, une

E à terra que nos viu nascer.

Mais nos liga que nos desune

Todos juntos a conviver.

 

 

 

Escrito nos inícios de 1982.

Publicado na VII Antologia do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, 2003.

Água sem gás… H2O

E como, apesar de termos hoje mais um dia de chuva, um copo de água sabe sempre bem e refresca as ideias. E também não vamos colocar a rapariga, pois que de uma rapariga se trata, não a vamos colocar a pedir um copo de vinho!

Lembramos ainda que a ação decorrente da narrativa se situa num outro tempo, tanto cronológico como meteorológico. Por tudo isso segue:

 

Capítulo II

 

Saiu então ela, Odete, da Livraria, agitando a nota de cinco mil escudos, ainda por destrocar. Mas precisava urgentemente de dinheiro mais miúdo.

Pensou ir ao Café, tomar uma bebida, entregar a nota e assim eram obrigados a dar-lhe troco. Acabou por entrar na primeira Tasca da Esquina e dirigiu-se ao balcão, pedindo uma garrafa de agá, dois, ó, do Luso.

H 2 O. Foto de F.M.C.L.

- Menina, não sabe que o H não se lê?! E andam vocês a estudar, não sei para quê…

Não obtendo resposta, o taberneiro continuou:

- Então, porque o pronunciou?! Além do mais não percebo por que razão o Acordo Ortográfico não baniu completamente essa letra. Não faz falta nenhuma, só dá mais trabalho e gasta mais carga de esferográfica e tinta e ocupa espaço na folha. A menina quererá certamente… dois. Oh, tu que és do Luso, traz aí… Mas, menina, quer dois de quê?? Dois maços de tabaco, já se vê. Já fuma?! Tão novinha! Não sabe que o tabaco mata?! Mas, enfim, aqui tem dois maços de tabaco SG, já se vê, mais uns pregos para o seu caixão. Pagamento no ato de compra, do tabaco, não do caixão, que esse pode ser pago a prestações.

 

- Pagar com cinco mil escudos? Isto aqui não é nenhum antiquário. Parece que regressou você da Guerra dos Cem Anos, com tantos escudos. Cinco mil!!! Bem podia ter trazido uns euros, se vem lá dessas Europas… Além do mais, hoje em dia, na era das bombas e dos mísseis não há escudos que nos protejam, tal o arsenal de destruição que se acumula por esse mundo fora. E já ninguém quer os escudos, nem os espanhóis desde a Batalha de Aljubarrota, só mesmo Dom Quixote… agora é tudo em euros, ou dólares.

- Olhe, menina, não lhe vendo o tabaco, pois não tenho troco para tanto escudo. Ainda mal comecei o dia, não tenho quase nada na caixa.

 

Ela que assistira, impávida e serena, a todo este arrazoado de conversa, explodiu.

- Não, não tem nada na caixa, não! Nem na caixa nem no caixote. Tem a caixa dos pirolitos desregulada e o caixote todo desaparafusado. Seu caixote despregado!

E preparava-se para sair.

 

- Espere aí, menina, que também leva troco.

Voltou-se a rapariga, admirada por, de repente, o taberneiro já ter dinheiro na caixa para lhe dar troco, quando este lhe devolve o impropério figurado, atirando-lhe a água dum copo que enchia para um cliente que lhe pedira uma água sem gás.

- Toma lá um refresco para essas ideias tontas. Imagine-se pronunciar o agá. Onde já se viu?! Só mesmo para quem quer ofender um quase analfabeto como eu.

 

Com os cabelos escorrendo, realçando o cheiro a camomila do shampoo, xampô, sem h, ultra suave, que costumava usar, quedou-se um pouco, meditando sobre algumas questões de Química que a preocupavam. Se tivesse boa nota, nesta disciplina, melhorariam as hipóteses de entrar na Universidade. Oxalá saíssem muitos problemas, porque na Matemática estava ela bem. Ou não, H2O?!

 

 

Mais uma Nota!

Uma versão deste texto foi publicada no Boletim Cultural Nº 71, do Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Ano XVI, Fev. 2005.

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