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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

XIII Antologia de Poesia do CNAP – Poema: “Desamor”

Círculo Nacional D’Arte e Poesia

 

Antologia

 

Hoje, damos a conhecer no blogue “aquem-tejo…”, o Poema “Desamor”, de Luís Jordão, de Mourão.

 

“Desamor”

 

“Como que se saracoteiam os fantasmas de

liberdade e sonhos gastos

Já não são soletráveis as palavras escritas

As estrelas que há no céu não se deixam mais

contar

 

Passa a rasoira pelo espaço-tempo do meu vazio

alcunhado de vida

Retumbam ecos de longínquas memórias

 

Tendo-se-me esfumado a utopia

Acho que perdi de vez

o sentido do caminho das Divindades”

 

Luís Jordão, Mourão

 

 

Ilustramos com mais uma linda fotografia original de D.A.P.L., de 2015.

 

Jacarandá Almada Foto original de DAPL 2015.jpg

 

Como “As estrelas que há no céu…” as estrelas azuis do jacarandá, nas nebulosas da folhagem…"ecos de longínquas memórias..."

 

Numa Cidade sem Tempo...

XIII Antologia de Poesia do CNAP – Poema: “Poeta Caminhante”

Círculo Nacional D’Arte e Poesia

 

Antologia

 

Continuamos com a divulgação da Poesia publicada na 13ª Antologia de Poesia do CNAP, 2015.

Neste post nº 264, damos a conhecer, “Poeta Caminhante”, de Maria Ana Tavares, Arronches.

 

"Poeta Caminhante"

 

"Vai, com as estrelas,

Sua luz de encantamento

E o luar e o mar e o vento…

Seu manto de silêncio e solidão

Abre-se a acordes de harmonia

Oriundos do além-crer,

Vindos em sonhos de infinito…

Seu coração vive e respira

A música que só ele escuta,

A beleza que só ele entende,

A luz que só ele apreende,

Em tudo à volta que se lhe oferece,

Para dar a tudo que vive e sente…

E vai, em seu caminho

De ardentes rosas, radiantes,

Que para ele se abrem ao passar,

Cercando-o de perfumes cambiantes

Em seivas de espinhos transformantes

Enquanto vai, mais e mais adiante,

Em sua busca, que o faz sempre ir…

Poeta ástreo e solitário,

Criatura errante, ensimesmada,

De olhos para lá do horizonte,

Caminhante do tempo e das estrelas,

De coração aberto ao Universo

Que, inteiro, se abre em seu caminho,

Dando-se em rimas de cósmica visão…

E vai, figura em trevas-luz envolta,

Em busca do adiante etéreo

Que ao longe entende, sem o alcançar,

Sonhando asas que o levem lá,

Vibrando rimas que o façam Ser,

Escutando, intuindo, andando,

Até poder, até morrer, até viver…"

 

Maria Ana Tavares, Arronches.

 

Ilustramos com um desenho original de F. M.C.L., de inícios deste milénio.

 

Digitalização de "Estrelas"  Desenho original de F.M.C.L..

 

“Vai, com as estrelas, / Sua luz de encantamento/ …” (M. A. T.)

 

 Ler também: Caminhadas.

Ícaro.

 

A desilusão de ser Árvore de Natal!

 

 Foi numa tarde ensolarada, mas fria, por acaso véspera de Natal, que assentei  raízes no local que é agora a minha casa. Foi em Dezembro, que o meu dono me plantou no seu valado, junto à casa, com vista para a igreja de São Martinho. Foi em clima de festa que eu nasci, de novo, nesta cidade. Para mim foi mesmo Natal, Nascimento. E, pensei, como seria lindo, uma festa, em que todos plantássemos uma Árvore, que todos fizéssemos sempre Natal. E, ao mesmo tempo sonhei, é agora, finalmente, que eu vou ser Árvore de Natal!

E o local não podia ter sido melhor escolhido. Da minha nova morada posso avistar, altaneira, a torre da igreja, vejo e ouço os sinos repicar de contentamento, miro as crianças que passam alegres e festivas na esperança do Natal, dou alento aos velhotes que recordam a sua infância e, aos adultos, lembro o tempo de paragem e reflexão, o apelo à Paz, à Amizade e Amor, à quadra que se vai aproximando e a todos poderei desejar sempre um Santo e Feliz Natal.

 

Como disse, esse sonho de vir a ser árvore de Natal, sempre me acompanhou, no viveiro onde nasci, no entreposto/viveiro onde residi temporariamente até ser comprado pelos meus novos donos e mesmo aqui, no valado onde agora moro, ainda vivi algumas semanas nesse sonho. Ele foi a fanfarra, os foguetes, o contentamento das pessoas, a aproximação real do Natal. Mas foi já este ano que eu tive um lampejo, um corte violento e brusco, sobre esse meu sonho, que agora considero devaneio, mania, fixação até.

 

Todo esse vai e vem de Dezembro, que depressa chegou e mais rápido se esvaiu, me deixou numa tremenda excitação, euforia, enlouquecimento. Mas, passadas as festas, a azáfama das compras, as consoadas, a passagem do ano, chegado outro de novo e, com ele, Janeiro, já depois dos Reis, a vida pareceu recuperar a sua habitual normalidade, bonomia proverbial. Mas eis senão, quando, numa tarde enevoada, um destes senhores que não respeitam o ambiente, trouxe no atrelado do trator uns quantos arbustos escanzelados que, a trouxe-mouxe, arremessou para o meio de um silvado, junto de uma parede velha, perto do local onde moro.

 

Quis gritar, barafustar, chamar-lhe à atenção pela falta de respeito, pela atitude do senhor, mas a voz ficou-me embargada de comoção e espanto, não me saindo nada do tronquito onde me encerro. E ele abalou, aos solavancos com o atrelado, roncando o motor, pelo meio dos pinheirais de onde proviera. Mas a minha emoção foi maior ainda por reconhecer, nesses arbustos escanzelados, amarelecidos, esfoliados, amigos meus, pinheiros e abetos, por quem eu, no viveiro, nutrira tanta admiração e, diga-se, uma pontinha de inveja, por lhes ser destinado virem a ser Árvores de Natal.

Não resisti à curiosidade, quase saltei do terreno onde estava, bem puxei as raízes, para saltar o muro e aproximar-me desses amigos e colegas que gemiam, reclamavam da sua sorte, alguns pediam ajuda, outros já mal se ouviam nas suas lamúrias e preces e, aos poucos, foram estiolando, morrendo à minha beira e eu sem nada poder fazer.

 

Mas, enquanto viveram, morrendo aos poucos, puderam contar-me o seu destino.

 

Chegado o tempo e a altura própria, foram destinados para o que fora o seu maior sonho de glória: serem Árvores de Natal. Quando vieram os lenhadores com as suas moto-serras, embiocaram-se nas melhores vestes, empertigaram-se eretos na coluna, tremeluziram as agulhas de contentamento, piscaram olhos à moto cortante, gemeram ai, ui, num misto de prazer e dor e desfaleceram às dezenas no solo, ao ranger da lâmina serrante.

Iniciava-se o seu sonho ou devaneio…

 

Foram amontoados, empilhados uns sobre os outros, enrodilhados os abetos numa fina rede, distribuídos em camionetas por supermercados, lojas, praças, lugares e lugarejos nesta moda consumista. Mas ainda sonhavam e, por isso, valia a pena tanto sacrifício!

Regateados no preço por senhores e senhoras, pirraças de meninos e meninas, lá foram no porta-bagagem até casa, vivenda ou andar, indubitavelmente à sala, junto à televisão ou à lareira. E, uma vez aí chegados, foram devidamente abonecados: fitas e fitinhas, laços e laçarotes, bolas e bolitas, estrelas e estrelocas, luzes e luzinhas tremeluzindo, faiscando, pisca-pisca toda a noite e santo dia. E caixas e caixinhas e mais caixas, embrulhos, sacos de artigos de marca, devidamente enfeitados de lacinhos, corações e pais-natais, tudo em volta do pinheiro ou abeto. Agora sim, eram Árvores de Natal. Tinham finalmente alcançado a sua noite de glória, todo o seu glamour, apoteose, aparato, atingiram a condição de estrelas, super-estrelas. Mas, alguns, já aí se sentiram abafados pela tremenda confusão de objetos, pessoas e coisas, acessórios e associados dos festejos.

 

Mas assistiram, participaram nos festejos de Natal, vivenciaram beijos e abraços, votos de felicidade e alegria, participaram na troca de prendas, levaram até alguns safanões na euforia desta vivência, vislumbraram o fogo-de-artifício, pela janela aberta, na passagem do ano, chegaram até ao Dia de Reis, mas aqui foi dada por finda a sua função. Passaram a ser um estorvo, um estropício, um empecilho na sala e o seu destino foi, inexoravelmente, o caixote do lixo, a lixeira da Câmara, ou o aterro sanitário, quando não uns encontrões, junto à parede, no meio do balsedo.

 

“Foi este o destino da nossa quinzena de glória. Foi este o final do nosso sonho de grandeza, por que tanto ansiávamos. Não há lugar a final feliz. Ser árvore de Natal passa invariavelmente por terminar no lixo”, disseram-me, lamuriando, os meus amigos pinheiros e abetos.

 

E, perante esta dura e cruel realidade, apercebi-me então como vão e balofo fora esse meu sonho de ser Árvore de Natal.

 

- Para quê luzinhas piscando, se no céu estrelado estão milhões de luzeiros eternos?! A estrela d’alva, a estrela matutina, a estrela boieira, o set’estrelo, eu sei lá…

- Porquê bolas coloridas, se o sol e a lua cheia me iluminam os ramos e inundam todo o meu ser de luz eterna?

- Anjinhos de fantasia para quê, se crianças escorregarão, um dia, nos meus braços fortes e me subirão no tronco, na busca de mitos e heróis?

- Sala iluminada por quê, se tenho este lameiro verdejante onde vivo, vislumbro a cidade e os seus arrabaldes, os pinhais e vinhedos em redor, sinto o murmurejar dos regatos que junto a mim passam, em direção ao Rio do Tempo e do Esquecimento e as aves nas minhas ramadas pousarão e farão ninho, quem sabe! E tenho como teto a abóbada celeste e como lustre o sol, a lua e as estrelas?!

 

E foi assim que eu, de nome vulgar Castanheiro, do latim Castaniariu, de nome botânico, Castanea Sativa, da família das Castaneáceas ou Fagáceas, perdi a mania de vir a ser, um dia, “Árvore de Natal”.

 

 

 

Este texto corresponde à 2ª parte (final) do texto publicado neste blog, a 11/11/14.

Deste conto tenho várias versões já publicadas noutros suportes, a saber:

  • Boletim Cultural nº 75 do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Ano XVI, Dez. 2005 – “Sonho e desilusão de uma Árvore de Natal!”.
  • Boletim Cultural Nº 80 do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Ano XVII, Dez. 2006 – “A ilusão de ser Árvore de Natal!”.
  • Boletim Cultural nº 109 do Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Ano XXIII, Dez. 2012 – “O impossível sonho de um Castanheiro que queria ser Árvore de Natal!”.
  • Jornal “A Mensagem”, Nº 481, Ano 44, Nov./Dez. 2014 -“O Castanheiro que sonhava ser “Árvore de Natal”.

 

 

 

 

Riscos... e Rabiscos

 Riscos … E rabiscos

 

Caem estrelas, das mãos duma criança

Flores semeia numa folha d’esperança

Com o lápis assenta o bico duro…

Brotam rabiscos desenhados no futuro.

 

Arado lavra a folha de papel…

Um mar suave pintado sem pincel.

 

Emergem riscos projetados nesse mar

Neles, p’rá criança, golfinhos a nadar.

 

Mais além… Rabisca outros traços

Talvez nós, talvez laços

Enleados em baraços.

 

Mas não! Não há qualquer confusão!

Ladrando, aqui, está um cão.

 

Ali e acolá, em branco…  espaços…

Mas logo, logo já… Nestas linhas, nestes maços

Estão meninos aos abraços.

 

E, nesta garatuja…  Antes que nos fuja…

Um gatinho a miar

Mais longe… num céu aberto

Pombinhos a voar.

 

Um xi-coração

Uma festa, um afago…

Tudo risco, nada apago

Deste afeto que te trago

Em cada traço, cada risco

Garatuja e rabisco

Traçado p’la minha mão!

 

Publicado em:

Boletim Cultural Nº __do Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Junho 2002.

“A NOSSA ANTOLOGIA” – Associação Portuguesa de Poetas, XI Volume, 2003

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