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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

“Simone, Força de Viver”

Costa Caparica. foto original. 2020. 08. jpg

Simone de Oliveira com Patrícia Reis – 3ª Edição: Novembro de 2013, Matéria-Prima Edições.

 

Tinha curiosidade em desbravar o livro.

E assim foi. Entre 5º e 6ª feira, foi lido, nalguns excertos relido. Muito bem escrito, muito bem contado, estórias da vida da Artista, multifacetada, umas mais apimentadas que outras. Simone é incontornavelmente uma figura pública da Cultura Portuguesa, desde os inícios dos anos sessenta. Música, teatro, canções, espetáculo.

 

Tinha pica na leitura, ademais bem contado e bem escrito, melhor se lê.

(Só assisti, melhor, assistimos, a um espetáculo ao vivo com a Simone, aí pelos inícios dos anos noventa, 91 ou 92 (?), nas Ruínas do Convento do Carmo.)

Mas em televisão, na rádio, desde meados de sessenta, principalmente 65, passou a fazer parte do nosso universo musical e do nosso imaginário.

Tinha uma voz que arrepiava. Em 69, foi aquele deslumbramento, aquela canção, aquele poema, aquela música, aquela interpretação. Arrebatadora!

Interessante a explicação, dada pela própria, sobre essa interpretação e o relacionamento dela com Henrique Mendes (pag. 46).

 

Anos sessenta, início dos setenta… a vivermos em ditadura, com todas as restrições à Liberdade, em todas as suas vertentes: pessoais, cívicas, sociais, políticas, culturais. Computadores, internet, redes sociais, revistas cor de rosa, “big brother”, tudo isso era ficção. Jornais, revistas, meios de comunicação, jornalistas tinham outra postura. Também estavam condicionados à censura, não havia liberdade de expressão. Falava-se nas ligações dos artistas, de boca em boca, exagerava-se até, mas pouco publicavam sobre a vida particular. Menos ainda os próprios a divulgavam, como agora, que mostram tudo, da raiz do cabelo até à unha do pé.

 

Bem, no livro, passados tantos anos, é interessante ler o que a Artista conta sobre essa emblemática interpretação com que ganhou o festival de 1969! Os acontecimentos tinham outra repercussão. Presenciámos, vimos em direto na TV, aquela atuação! Aquela garra!

Depois, a perda da voz, acompanhámos essas truculências da vida. A recuperação, numa forma diferente. Lembro-me perfeitamente do festival de 73, em que voltou a participar. (Até houve um concurso, promovido não sei se pela Emissora Nacional se pelo Rádio Clube Português, sobre uma das canções, penso que “Minha Senhora das Dores”.) O Ary quase monopolizou o Festival, escrevendo a maioria das letras.

 

Também fala da “rivalidade” com Madalena. E também da amizade entre ambas. Existindo, certamente. À data, realçava, de facto, essa picardia entre as duas. Existisse ou não, era muito alimentada pelos meios de comunicação da altura. Rainhas da Rádio, Rainhas disto e daquilo. Nunca votei nesses concursos, não tinha acesso aos respetivos cupões, não abundava o dinheiro para gastar em trivialidades, nem elas existiam no fim de mundo aonde vivia, aonde vivíamos todos, nesses tempos obscuros. O mundo da época, segunda metade da década de sessenta, não tinha nada a ver com o de hoje. Mas lembro-me, era miúdo, do Festival de 66, ganho pela Madalena e, eu, na altura, torcia por ela e pelo “Ele e Ela”.

Estas coisas podem parecer futilidades sem importe, mas naqueles tempos, pouco havia com que se interessar. Houve o célebre Mundial de 66, nesse ano na Inglaterra. E como foi empolgante e como se criaram tantas expectativas, goradas no fatídico jogo com a equipa anfitriã. E como Eusébio chorou e com ele chorámos.

Mas estou a perder-me do livro…que não aborda o futebol.

 

Mas aborda muitas mais coisas e mais importantes. Mas fará o favor de procurar o livro, adquirir, para oferecer às suas Velhotas ou Velhotes. E lê-lo, primeiro, antes de oferecer.

Vai gostar!

O “meu não – momento” Eusébio!

Pior que fazer, ainda que errando, é não fazer!

 

Foto Original. Sesimbra. 2019. 04. jpg

 

Ao delinear o postal “O meu momento Amália”, que já vinha congeminando há algum tempo, pensara entrosá-lo juntamente com o “Não – momento Eusébio”.

Mas algo que tenho aprendido nos blogues: limitar a narrativa a uma página. Sugestão até de conceituado Jornalista de “Delito de Opinião”, quando me convidou para escrever um postal – Pedro Correia. A partir daí, tenho procurado limitar-me a essa dimensão. Em vez de um postal, escrevo dois.

 

Curiosa associação: Amália – Eusébio.

 

Não me vou explanar nesta dualidade, que daria pano para mangas. Apenas afirmar que, atualmente, considerar-se que Amália e Eusébio são duas figuras incontornáveis da nossa Cultura, não só nacional, até universal, atrevo-me a dizer que será uma opinião consensual. Digo eu! Nem sempre foi assim. Também o digo!

 

Também nunca vi Eusébio jogar ao vivo. Nunca fui ver um jogo de futebol, em grande estádio, nem um jogo entre grandes. Nem tenho projetado ir, embora a Vida nos proporcione surpresas inimagináveis. Jogos ao vivo, apenas de amadores. Também nunca tive jeito para a bola.

 

Mas tenho admiração por Eusébio, desde miúdo. E quem não terá, da minha geração?! Eusébio proporcionou-nos, enquanto miúdos, no célebre Mundial de 66, momentos mágicos, de alegria, redenção, entusiasmo, sublimação da vida pacata, nesse recôndito Portugal de antanho, de subsistência, inverosímil aos olhos de hoje.

 

Ah! O “meu não – momento” Eusébio!

 

Já neste milénio, resolvemos ir passar uns dias a Sesimbra. Como estávamos perto e não lido muito bem com marcações vias nets e que tais, fomos à papo-seco, sem marcação de alojamento. Procuraríamos in loco.

Um dos hotéis que procurámos situa-se no centro da vila, na parte baixa, bem frente ao mar. Não me lembro do nome.

Entrei na receção, aproximei-me do balcão, para ver se estava rececionista, mas não estava ninguém. Junto do balcão, não pude deixar de reparar nuns documentos colocados e neles ler aquele nome tão conhecido: Eusébio da Silva Ferreira!

Fiquei estupefacto! O Eusébio!!! Disse para mim: o Eusébio está aqui neste hotel!!!!

 

Naquela visão lateral que todos temos, vislumbrei provindo do lado esquerdo, pessoas descendo as escadas para o átrio.

Olhei! Era o Eusébio, mais a esposa, que vinham descendo! Dirigiram-se ao rececionista, entretanto chegado, estiveram mesmo ao meu lado, à minha beirinha, trataram das papeladas, pertinho de mim, e saíram para a avenida.

 

E porquê o meu não momento?!

 

Porque gostaria de ter tido a lata que tivera com Amália e tê-lo cumprimentado, ter-lhe dito, como o admirava desde aquele celebérrimo Mundial. Daqueles jogos que nos empolaram, o mais que emocionante com a Coreia, o seu desempenho, o nosso embalar nas vitórias subsequentes, a criação de ilusões sobre a possível vitória final, a frustração da derrota face a Inglaterra, já na meia final, como chorámos com ele, como achámos injusto. Ainda assim, a superação, após a vitória perante a poderosa URSS e o inabalável Yashin.

 

Tudo isto lhe poderia ter dito, ter-lhe agradecido pelas alegrias que nos proporcionou, em tempos tão cinzentos, mesmo com a televisão a preto e branco. Poderia ter dito, mas não disse! Porque fui vencido pela minha proverbial timidez e vergonha.

 

Este é daqueles momentos de que me arrependo. Pior que fazer mal é não fazer!

 

Ao longo da Vida tenho tido momentos desses, que acabam por ser não momentos.

 

E também lhe poderia ter pedido um autógrafo!

Trasladação / Encenação

Panteão Nacional. in wikipedia..jpg

 

 Postar ou não Postar?!

 

Na passada 6ª feira, dia 3 de Julho, ocorreu um evento mediático, com divulgação em direto em dois canais generalistas de televisão, sobre o qual tenho vindo a hesitar se haveria ou não de publicar um post sobre o mesmo.

Várias ideias sobre o assunto, ao longo dos vários dias, mas protelando sempre o início da escrita.

Finalmente, ontem, tarde e a más horas, comecei a passar a texto algumas das ideias.

 

Decididamente, escrever num blogue é algo que, para mim, está a ser surpreendente.

Comecei com determinados propósitos que defini mentalmente como princípios para minha própria orientação. Princípios esses que se mantêm bem como as correspondentes estratégias de ação, mas há realidades que se vão sobrepondo, de modo que algumas das atividades que planeava executar têm sido um pouco relegadas para um plano mais secundário.

Outras temáticas têm prevalecido. Assuntos sobre os quais não projetara qualquer escrita, vão surgindo, mercê da interação que se estabelece neste mundo virtual, neste campo comunicacional.

Temas sobre que à partida definira para mim mesmo não escrever, tornam-se apetecíveis de comentar. Está neste caso a política. Decidira, à priori, que não me debruçaria sobre a política no sentido imediato do termo: “política tout court”. Porque acharia não ser essa a minha praia, haver tanta gente a fazê-lo, a saber como fazê-lo e a poder fazê-lo bem, tendo também as costas quentes para tal!

 

Também tem sido um espaço de aprendizagem.

Eu, para todos os efeitos e neste mundo dos blogues, sou perfeitamente um aprendiz e um outsider. E na comunicação ainda e muito mais.

Até no timing daquilo que escrevo. Sim, porque escrever sobre um evento ocorrido há oito dias é uma eternidade! Num mundo tão célere em termos de acontecimentos, com a rapidez e fluidez com que tudo acontece e desacontece, com tantas coisas e loisas a todo o momento na net, qualquer novidade sobre que se escreve perde rapidamente atualidade e sentido. E não é este precisamente o meu propósito! Gosto que haja algum sentido lógico naquilo que escrevo, não me limitar ao sensorial apenas, o que os olhos vêem e os ouvidos ouvem, mas que haja algo mais que o sentir, também o pensar sobre.

Daí que também o que escrevo tenha muitas vezes demasiada extensão para o contexto em que se insere.

Mas também se não fizesse assim, se não procedesse deste modo seria outra pessoa que não eu!

…   ...   ...

 

Panteão_Nacional interior. in wikipédia.jpg

 

O assunto sobre o qual pretendo “postar” e que tenho vindo a hesitar, trata da trasladação de Eusébio, do Cemitério do Lumiar para o Panteão, em Alfama.

Não está em causa o mérito da pessoa em causa. Foi jogador emérito, futebolista insigne, astro rei na constelação de um naipe de jogadores excecionais, que brilharam nos anos sessenta do século XX, estrela da equipa dos “Magriços”, nome identitário de um Portugal à época repartido por cinco continentes e categorizado pela trilogia dos efes: Fado, Futebol e Fátima.

Eusébio foi uma bandeira que elevou o nome de Portugal, nesse tempo, nem sempre bem visto em vários fóruns internacionais. Consagrando-se como porta-estandarte de um País, pelos seus méritos e feitos no mundo futebolístico, uma estrela cintilante desse mundo desportivo, sem nunca ter assumido qualquer estatuto de vedeta, hoje tão intrínseco em qualquer profissional do ramo, sendo que nele o mais característico era precisamente a sua proverbial humildade.

 

Homenagear Eusébio, reconhecer o seu valor enquanto profissional de gabarito excecional é pois um ato normalmente aceite por qualquer cidadão português. Uma opinião unanimemente partilhada.

(Quem não chorou ou se emocionou com ele, quando ele chorou, no final daquele fatídico Inglaterra – Portugal, de 1966?!)

 

Mudar o seu corpo dum cemitério vulgar, onde repousam os restos mortais da maioria dos cidadãos, para um local onde estão depositados os que mais engrandeceram a Pátria, o Panteão, também se apresenta como uma ação perfeitamente integrada na normalidade. Ainda mais, Hoje, em que os deuses que povoam o panteão da atualidade são precisamente os do mundo do futebol, um verdadeiro Olimpo.

 

Então, porque será que sinto que esse ato pretensamente solene, a que compareceram representantes de todos os quadrantes, encerra em si mesmo uma grande encenação política e mediática?!

 

Haveria necessidade de andar a transportar o corpo, assim, daquele modo e daquela maneira, por uma Lisboa inteira, e ainda dar conhecimento em direto, com todos os pormenores possíveis, em duas televisões a todo o País?! Como se não fosse bem mais racional estruturar um trajeto direto entre os dois locais, com recurso a meios logísticos também usuais, sem aquele pretenso aparato e magnificência?! E nos locais próprios concretizar as cerimónias devidas, sem exageros barrocos e bacocos!

 

Supondo que fosse possível questionar a pessoa em causa, em vida, sobre o que o próprio acharia sobre o facto, o que acham que responderia?!

…   …   …

Pois!...

 

Mas é este o país que temos. Nem mais nem menos. Agora e, cada vez mais, um país de efes, agora já não e apenas identidade específica de um regime, como era considerado há quarenta anos, mas, pelo que vemos e ouvimos, matriz identitária de um País, de um Estado, de uma Nação!

 

Bem, e tenho dito, melhor, escrito!

 

Efecaritamata.

 

 

 

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