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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Um pouco mais…

Um pouco mais…

 

Um pouco mais além… Éramos Ases.

Um puco mais audazes… Campeões.

Mais umas palmas… Éramos Ídolos.

Um passo mais… E seria a Glória.

Um pouco mais de rasgo… Éramos Génio.

Um sopro mais… Éramos Deuses.

Um pouco mais de brilho… Éramos Estrelas.

Um pouco mais de luz… Éramos Sol.

Um pouco mais de sol… Universo.

 

Mais ambição…Éramos Poder.

Mais poderosos… Prepotentes.

Mais prepotência… Ditadores.

Um pouco mais de lume… éramos Fogo

Um pouco mais de fogo… já ardíamos.

 

Um pouco mais de água… seremos Mar.

Um pouco mais de mar… somos Amar.

Um pouco mais de’Amor, só…

Um pouco mais de’Amor.  E seremos Homens!

                                   Só um pouco mais!

 

 

 

Escrito em1986.

Publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Poetas,Junho de 1987.

 

Foto0589.jpg. Foto de D.A.P.L.

 

CAMINHADAS

 CAMINHADAS

 

Pouco a pouco, os Sonhos são quimeras

Arredados nos Caminhos percorridos em Outrora.

 

No tecido da urbe que habitamos

Os passos do presente registamos

Deixando sempre outros caminhos

Passos, ruas, por correr…

 

Entramos em casas, nunca em todas

Qu’impossível se torna estar em todas.

Saímos, fechando algumas portas

Que abertas, ficar deviam. Todas!

Mas nem sempre podem.

Vai havendo sempre novas portas

Para abrir.

Enquanto conseguimos.

E portas há que nunca abrimos

Fechadas “ab aeterno” pelos Deuses.

 

Mas cada vez mais quedados em nossas casas

Quando não no nosso quarto, já sem asas

Cada vez mais em si mesmo dados.

 

Por vezes nos achamos em becos sem saída

Ou em quartos sem janela

Nesta cidade cada vez menos construída

Para nós, Homens, vivermos nela.

 

Resta-nos rasgar paredes e, nelas

Inscrever o Sol, a Luz, o Mar de barcas – belas

O Tempo das calmarias sem procelas.

Sabendo que mais fácil é dizê-lo

Do que, todavia, será fazê-lo.

 

Marca-nos sempre ao Longe termos

O Campo Santo que a Natureza 

Povoou d’esguias árvores apontando

O Céu, o Astro, o Sol, a Vida!

 

E, enfim, os olhos descansaremos

Nessa imensidão Sem Fim, do Mundo!

 

 

Escrito em1986.

Publicado: Revista “Família Cristã”, rubrica “Lugar aos Novos”, Fev. 1987.

"A Nossa Antologia" - APP - XIII Vol. 2006 

 

Caminhadas. Foto de D.A.P.L. 2014

 

 

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Introito

Após a divulgação de cinco poesias relativas ao Alentejo, “viagens no tempo e no espaço” sobre este tema que nos é tão querido, voltamos a divulgar, conforme delineado, um texto em prosa de ficção, uma viagem no Tempo sobre História…

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Todos os dias fazia viagens. Casa trabalho, trabalho casa. Pequenas viagens e apenas simples viagens.

Mas, naquele dia, VIAJOU real(mente). Uma verdadeira VIAGEM.

Num tempomóvel viajou. Uma viagem no Tempo.

Entrou num aparelhómetro semelhante a uma cabine telefónica das antigas. A porta fechou-se automaticamente. Carregou numa manivela… Sentiu-se estremecer por todo o corpo.

Um turbilhão de névoas em espiral… Todo o aparelho abanava, como se estivesse em convulsões.

Parou.

De repente achou-se num espaço e tempo desconhecidos.

 

Era um pátio enorme, cheio de água. Azul, muito azul. No meio, um estrado. Sobre ele uma mulher…

Vestido cor-de-rosa, um grande decote, por onde escorria um líquido. Azul, muito azul.

Entre mãos segurava uma cabeça, cabelo empoado, salpicado de azul.

Reconheceu-a.

Era Maria Antonieta, segurando a própria cabeça, há pouco decapitada.

Só então compreendeu que a água, o líquido azul, era o seu sangue. Azul, muito azul.

Falava. Perguntava.

- “ O meu menino?! O meu menino?!”

- “O menino está bem. Ainda há pouco dormia.” Responderam-lhe, em coro, milhões de mães, angustiadas com os seus próprios filhos.

Tranquilizou-se.

E pondo a cabeça entre um dos braços, apontou. Apontou para cima.

 

Maria Antonieta - Rainha de França - wikipédia

Num céu também azul, muito azul, estava um Sol. Um Sol – deus um Deus – sol. Muito gordo, cada vez mais gordo, uma grande cabeleira empoada, estava. Brilhando, brilhando cada vez mais, resplandecente de ouro, estava Luís XIV, o Rei. O Rei – Sol.

Todo ele era ouro. Barras de ouro, moedas de ouro. Luíses de ouro.

Luís XIV - Rei Sol - Rei de França - wikipédia

Ficou farto. Farto de tanto ouro, de tanto azul. Ouro e azul…

E mergulhou.

Marat - wikipédia

Mergulhou e achou-se numa banheira com Marat, todo ensanguentado.

Mas esse sangue era vermelho. Vermelho de sangue. Sangue de vermelho.

Experimentava, fazia experiências. Consultava manuscritos, equações e fórmulas.

 

Reconheceu a letra. De alguém que andara… há muito!... consigo, no Liceu.

Lavoisier, cientista francês - wikipédia.

Era de Lavoisier.

 

E Marat perguntou qual era a fórmula da água. Esquecera-se. E queria transformar todo aquele sangue em água. Estava farto de tanto sangue.

“H2O”, responderam-lhe milhões e milhões de vozes, de todos os injustiçados que morrem inútil e futilmente, como resultado de todas as atrocidades que os homens cúpidos de ganância e poder cometem contra os próprios irmãos de sangue.

 

E o narrador desta história mergulhou de novo na banheira ou piscina, não sabia… Também estava farto de sangue. Azul e agora vermelho.

E chegou ao fundo. Viu o fundo. E espantou-se!

 

Não era esmaltado, nem branco, nem azul. Não era vulgar, de uma banheira ou piscina normais.

O fundo era humano. Era um homem estendido, formando os contornos de uma banheira ou piscina. Enorme, gigante, espraiando-se por toda a França. Crescendo. Crescendo sempre.

Então compreendeu tudo. As ideias aclararam-se. Fez-se Luz. Mas a paisagem escureceu. Escureceu muito, fazendo-se negra, preta, preta de carvão.

Encheu-se de Terror!

Robespierre - wikipédia

Era Robespierre. Robespierre era o fudo de tudo aquilo.

Guinou. Num golpe de rins, infletiu para cima. Deixou o preto, o vermelho, o azul. Tudo sangue.

Veio à superfície.

 

E de novo foi banhado por todo aquele sol dourado. Daquele gordo, farto de ouro. Que nu, se banhava num cofre cheio de luíses. Luíses de ouro.

 

Notou que o umbigo crescia. Pouco a pouco delineavam-se contornos, formas. Uma forma única, homogénea, humana.

 

Nascia um homem do umbigo do rei. Um homem pequeno. Fardado, calças justinhas ao corpo. (Mas não era freak, não!) Trazia um braço metido no casaco… ou na braguilha, não se apercebeu bem.

 

Ah! Napoleão…

 Bonaparte, nascia do umbigo do Rei – Sol!

Napoleão Bonaparte, imperador francês. wikipédia

 

O Tempomóvel parou. Acabara-se a viagem. Uma luzinha vermelha indicava falta de tempolina, o combustível das viagens no Tempo.

E, subitamente, o narrador regressou ao Real(mente) Presente. Que atualmente também já é Passado.

*******

Viajava, na altura, num comboio de Elvas para Lisboa, quando “escrevi” esta história sobre a História de França e quiçá da Humanidade.

 *******       *******

De Luíses, julgando-se Donos do Sol e de Tudo e de Todos, está o Mundo cheio.

De Robespierres potenciais e factuais está a Humanidade farta, mas eles continuam atuando por aí, agindo de forma cruel e desumana, matando indiscriminadamente, cada vez mais selvaticamente!

E Bonapartes ávidos de Fama, Glória e Poder, cada Potência tem o seu de maior ou menor envergadura! Grave e perigoso se torna quando pretendem extrapolar essas ambições a outros povos, nações, reinos e países… O século XX teve-os bem catastróficos, em maior ou menor escala, conforme os países ou nações que tutelaram!

 

Quanto à viagem inspiradora essa sim é irrepetível, pois cada momento é sempre único “ não é possível um Homem banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio”, citando o filósofo.

E contextualizando a narrativa num plano mais realista e prosaico, há que referir que já não se podem sequer realizar essas simples viagens, tão propícias à evasão, ao devaneio, à reflexão, como eram as viagens de comboio…

Pois, muito prosaicamente, já não circulam comboios de passageiros na Linha de Leste, espaço e tempo em que, em viagem, em movimento, esta história foi surgindo.

Só mesmo viajando no tempo e vogando na imaginação.

 

 

Notas Finais:

Esta história, inspirada na História de França, foi escrita nos inícios da década de 80, julgo que em 1982.

Foi publicada no JL – Jornal de Letras, Nº 212, Ano VI, 28/07/1986, na rubrica “A Prova dos Novos”, sob pseudónimo: “Zé Manel (Mata)”.

O enquadramento da história foi adaptado, nas explicações iniciais e finais. Na versão inicial era ligeiramente diferente. Também o papel e ação do narrador foram modificados.

 

Quando já tenho o tema tratado e organizado para publicação, 4ª feira, 07/Jan., por trágica ironia, tenho conhecimento da ocorrência, na capital francesa, dos bárbaros e desumanos atentados, amplamente noticiados. A barbárie, a crueldade, a insanidade, a insensatez humanas, continuam desenfreadas…assassinando inocentes. Quase todos os dias, pelos mais diversos locais da Terra, a sanha assassina abate-se sobre homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, adultos, indiscriminadamente, civis que nada têm a ver com as guerras que se eternizam pelos mais diversos locais da Terra!

É a 2ª vez que, quando preparo um post para o blog, em que um país é de algum modo mencionado, acontecem situações problemáticas nesse País. Já sucedera relativamente a Timor!

 

De qualquer modo divulgo esta história como tinha projetado, isto é, após a publicação da poesia “Alentejo”, também de 1982 e dos quatro poemas escritos em 1988, sobre quatro dos cinco sentidos, reportando-me a idêntica temática “Alentejo”: “Cores…, Sons…, Cheiros…, Mãos…”. Um 5º tema, versando  “Sabores..”, nunca chegou a ser escrito…

 

Continuo dando seguimento ao projeto idealizado: ir divulgando a poesia já publicada, modalidade sobre que me tenho debruçado mais, intervalando com textos em prosa de ficção também já publicados.

Seguidamente tentarei criar um texto novo sobre uma temática atual…

Aguarde para ler!

 

Uma NOTA FINAL:

No concernente às fotos, e dado o tema versado, foram todas retiradas da net: wikipédia, enciclopédia livre.

As imagens são apenas uma sugestão para os subtemas. O ideal era ter imagens originais diretamente relacionadas…

 

ALENTEJO

Divulgamos hoje o nosso post nº 50. Que é também o 1º trabalho que colocamos em 2015. E, como não podia deixar de ser, pois também é esse o nosso propósito, damos a conhecer neste enquadramento uma poesia sobre o nosso Alentejo.

Este conjunto de vinte e seis quadras foi escrito em 1982, numa época em que trabalhava no Alentejo e resultaram da observação poética da planície transtagana nessa altura. Alguns aspetos ter-se-ão modificado. Atualmente há realidades que, à data, eram ainda ficção científica. De qualquer modo é um flash desse tempo nesse espaço, que nos é tão querido e idealizado.

 

 

 

ALENTEJO

 

Horizontes infinitos

Extensões de montados

Manchas de olivais bonitos

No meio, campos lavrados.

 

Campos a perder de vista

Vista do cimo do monte

Altaneiro como crista.

No vale, a horta e a fonte.

 

Montes quase abandonados

Sem caseiro nem patrão

Pois carros motorizados

A casa trazem o aldeão.

 

Casas de branco caiadas

Barras azuis e amarelas

Cheias de esmero, asseadas

Alegra os olhos vê-las.

 

Rasteiras, bem alinhadas

De quando em vez solarengas

Varandas, janelas bordadas

Casas, nossas avoengas.

 

Chaminés de sol e lua

Portas de cantaria

Abrindo a casa à rua

Dão beleza à frontaria.

 

Ruas de casas juntinhas

Fazem terras afastadas.

De noite é ver as luzinhas

Dar vida à planura, encantadas.

  

De dia banhadas pelo sol

Alegria e tormento

A brancura dum lençol

A secar na planície, ao vento.

 

Do Alentejo aldeias

De gente calma e fagueira

Amiga de trocar ideias

Embora nem sempre à primeira.

 

Gente mais moça abalando

P’ra Lisboa e outras bandas.

Os mais velhos vão ficando

Até que Deus queira, em bolandas.

 

Pela manhã, o Destino

Os leva à soalheira

Aquecer sangue latino

Que já falta companheira.

 

Durante a manhã, as comadres

Dominam as ruas mercando

E estando fora os compadres

Com as amigas vão conversando.

 

À tarde e à noitinha

Após um dia de trabalho

Homens enchem a tendinha

Causa de brigas e ralho.

 

Mas após tanta fadiga

No campo, a maioria

Faz bem beber uma pinga

Dá esquecimento e alegria.

 

Terminar a cavaqueira

Que à janta a mulher chamou.

Esperar sentado à lareira

Que a novela começou.

 

Migas, açorda e mais

Sopa de cachola e tomate

De miolos, gaspacho, é demais

Tanto pão e tanta arte.

 

Hoje não é tanto assim

Comida vai variando.

Borba, Redondo, enfim

Rico tinto acompanhando.

  

Após a janta, o descanso

Que amanhã é de trabalho.

Antes, um breve remanso

Aquecendo-se ao borralho.

 

De manhã o sol levanta

Trabalhador para a jornada.

Dantes a pé, agora espanta

A quem tem motorizada.

 

Lavoura, azeitona e cortiça

São trabalhos desde outrora.

Conforme a época, a liça

Novas culturas agora.

 

O tomate, o girassol

Culturas de regadio.

As barragens são um rol

Mas não chegam p’ró sequio.

 

Os serviços na cidade

Algumas indústrias também.

Desemprego, ansiedade

De quem quer algum vintém.

 

Pau bucho, chifres, cabaças

Argila, pedrinhas e linho

Nelas, flores e sonhos traças

Objetos de amor e carinho.

 

Trabalho feito com as mãos

Na cortiça, ferro ou barro.

Homens de arte, artesãos

Ourives de bilha e tarro.

 

Mas artistas todos são

De pincel ou de trator

Na tela ou terra chão.

Basta trabalhar com amor.

 

Amor que a nós, Homens, une

E à terra que nos viu nascer.

Mais nos liga que nos desune

Todos juntos a conviver.

 

 

 

Escrito nos inícios de 1982.

Publicado na VII Antologia do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, 2003.

NATAL: leitura de SALMOS

Arranjo de Natal. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 E, porque é Natal, apesar de ser Natal todos os dias, mas nem todos possam ter um Natal como merecido...

 

A leitura de SALMOS

 

Salmo 23

"O SENHOR é o meu pastor: nada me faltará... (...)

Digitalização Estrela Natal. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 

Salmo 27

" O SENHOR é a minha luz e a minha salvação...

" O SENHOR é a força da minha vida... (...)

 

Sol de Inverno. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 

Salmo 100 - Salmo de Louvor

 

"CELEBRAI com júbilo ao SENHOR, todos os moradores da terra...

Roda de Natal, APBP, Artistas Pintores com a Boca

 

(... ... ...)

 

"Porque o SENHOR é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade estende-se de geração em geração."

NATAL fora de moda!

 

POSTAIS de NATAL

de

APBP - Artistas Pintores com a Boca e o Pé

Caldas da Rainha

Rua Belchior de Matos nº 5 r/c Dto

 

Praticamente, hoje em dia, estará "fora de moda" o envio de Postais de Natal.

Com tantos recursos eletrónicos, sistemas on-line de envio de informações, poucas pessoas usarão tal meio de comunicar. Infelizmente!

Era muito gratificante escrever, enviar e receber estes lindos Postais Natalícios.

Por isso não resisto a divulgar alguns exemplares... 

É também uma forma de Solidariedade!

"A ESTRELA"

A Estrela P1226 original pintado com a boca por Johanna Gruszka

"ÁRVORE de NATAL"

Digitalização árvore natal 2. P1409, original pintado com o pé por Maria Goret Chagas

 "AMIZADE"

Feliz Natal.jpg

"NATAL às CORES"

Natal às Cores.jpg

"REFLEXOS DOURADOS"

Velas.jpg

"SOL DE INVERNO"

Sol de Inverno.jpg

"CORREIO DE NATAL"

Marco de correio.jpg

 

Então, de que está à espera?!

Escolha um exemplar, a Instituição tem muitos mais e mais artigos disponíveis, e envie um lindo Postal, escrito por si, a uma Pessoa que estime!

 

Diálogo através duma Máquina Fotográfica...

Diálogo através duma máquina fotográfica

A luz... e os olhos

 

A luz, ferindo a vista, reflecte-se das paredes brancas, brancas paredes, cortadas pelos rodapés azul-ferrete, amarelo-ocre, castanho-grená, cinza, branco simples e totalmente.

E a luz sempre. Forte, intensa, traz-nos semi-cerrando os olhos.

 

Nas ruas, calçada irregular e gasta de solas, ferraduras, rodas ferradas, pés descalços e agora a borracha que nela também se gasta, não há vivalma.

 

À porta, a uma porta, uma velha, viúva, assomando-se.

De preto vestida, como se toda a luz que se espraia das casas, dumas frontarias para as outras, a ela esteja destinada. A luz e o calor que o preto absorve inteiramente.

 

A cara e o pescoço (do corpo não aparece mais nada, excepto as mãos) são uma paisagem gretada de rios, vales profundos e secos da erosão do tempo, pele escura de muitos sóis e luas, de marés nunca vistas, que o mar fica muito além do horizonte, perdendo-se a vista no azul, fusão de céu e terra. Terra, que nem no mar, sentindo periodicamente os efeitos da lua, das luas, da sua força gravitacional, expelidora e contractora.

 

Ganhando confiança, saiu da soleira da porta, pareceu amanhar as flores num canteiro de pedras sobrepostas, encostado à parede da frontaria, com uns craveiros, begónias, manjericos, tudo tapado por uma rede de capoeira. Para as vacas não comerem quando, à tarde, regressam do campo para a ordenha no estábulo.

 

Fez-se à fotografia. Compôs um sorriso, o melhor que pôde, numa boca descarnada, há muito sem dentes. Perdidos que foram nos toucinhos, pão, sardinhas, fio de azeite, azeitonas, café de borras, higiene dentária desconhecida de pepsodentes branqueantes e idas ao dentista.

 

Arranjou o lenço preto na cabeça, escondendo uns fios de brancos que assomavam sobre a testa e as orelhas. Ajeitou a blusa e a saia, ainda se interrogou, olhando, se havia de tirar o avental. Deixou-o ficar. Encostou-se à soleira, soergueu o peito, que terá tido seios firmes, embora não sabendo nunca o que é ‘soutien’, mas terá sabido de mãos carinhosas, calosas embora, mas carentes de desejos, percorrendo montes e vales, após largarem a rabicha do arado por vales e montes.

Instintivamente pousou as mãos sobre o baixo-ventre uma a segurar a outra. Que isto das mãos a gente nunca sabe o que lhes fazer nestas coisas. E as mãos fazem cada coisa e tanta cousa! Sòmente paradas não sabem estar.

 

E só agora reparo nos olhos! Pretos, expressão de moiras que ficaram perdidas na planura. Sem sombras. Que não há sombras a esta hora, nem nestas horas. Estão apenas suspensas dos telhados de canudo, a meio caminho do chão, nas duas frontarias. Que o sol está entre cá e lá, no trajecto de todos os dias, no ponto mais alto do dia, a meio.

 

E ficamos nos olhos, cheios de vida, brilhantes de entrega, para uma foto ao meio dia, numa rua antiga duma Aldeia, perdida na planície.

 

Notas (incompletas) sobre o Texto:

Neste texto mantem-se a ortografia usada quando foi escrito, na década de 80.

Está publicado em Boletim Cultural Nº 17 do CNAP - Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Julho 1992.

Foi premiado em dois Jogos Florais:

  • 2º Prémio nos 2ºs Jogos Florais da “Alma Alentejana”, Almada, 2002.
  • 1º Prémio em Jogos Florais de Associação de Amigos de Montargil.

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