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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

XIII Antologia de Poesia do CNAP – Poema: “Ao Cante Alentejano”

Círculo Nacional D’Arte e Poesia

 

Antologia

 

Neste Post nº 271, voltamos à publicação de Poemas da 13ª Antologia do C.N.A.P., de 2015.

 

Desta vez, um Poema de um Alentejano, Luís Ferreira, de S. João de Negrilhos, Aljustrel, debruçando-se sobre uma Arte identitária das Terras Transtaganas, mais especificamente originária do Alentejo Sul e Central, mas que se estendeu à Grande Lisboa, mercê da Diáspora Alentejana, a partir dos anos sessenta do século XX.

Falamos do Cante, que após a atribuição pela UNESCO, do galardão de pertença ao “Património Cultural Imaterial da Humanidade”, em 2014, alcançou foros de Cidadania Global.

Pois o Poema de que falamos designa-se precisamente:

 

“Ao Cante Alentejano”

 

“Cantam em coro

E a sua voz se eleva

A uma voz,

Em grupo, ao mesmo tempo

De nós raízes são

De sofrimento, amor e solidão

E nesse momento

De vertical paixão

Dão ao silêncio luta

E a sua voz em coro

Rompe a solidão!”

 

“Ao Cante Alentejano, género musical tradicional do Alentejo, foi classificado pela UNESCO, em 2014, Património Cultural Imaterial da Humanidade.”

 

Luís Ferreira, S. João de Negrilhos (Aljustrel)

 

Na Antologia, este Poema está ilustrado por um sugestivo desenho, também da autoria de Luís Ferreira, composto por três elementos figurativos: o sol, uma espiga e uma sugestão de mar... Uma trilogia também identificadora do Alentejo!

Lamento não apresentar o desenho neste post, mas não me foi possível digitalizá-lo. E, o ideal seria publicar um original. Caso o Autor me fizesse chegar um exemplar de um desenho, ficaria muito grato.

Luís Ferreira é também o Autor da Capa da Antologia, conforme também já referi. Quando puder e se puder, tentarei digitalizá-la.

Este Autor também teve a amabilidade de me ilustrar o exemplar da Antologia que guardo para mim, com os autógrafos dos antologiados, com um bonito desenho, que valoriza ainda mais aquele exemplar único, porque contém as assinaturas de vários dos Poetas antologiados, de todos os que até ao momento pude contactar.

 

Sobre o “CANTE” já publiquei neste blogue algumas crónicas. Aliás, a primeira, e, de facto, o primeiro post foi precisamente sobre esta Arte Coral.

Também já divulguei eventos sobre o mesmo, para que reporto também.

 

E com toda esta conversa penso como ilustrar esta apresentação.

Seguindo o óbvio, uma imagem de um Grupo Coral seria ilustrativa. Mas não tenho nenhuma pessoal. Na net é o que mais há, dir-me-ão!

 

Nem sempre gosto de enquadrar os temas no que será mais explícito à primeira vista.

 

Mas após muito pesquisar… No meu “depósito” fotográfico já tenho cada vez menos fotos… e não tenho nenhuma suficiente sugestiva.

 

Pensei numa de “giestas floridas”, giestas como uma sinfonia de cor, em tons de amarelo, como o das searas… Do “meu” Alentejo, do Nordeste, que não é tanto de planícies… como a foto muito bem ilustra.

 

Giestas floridas Foto original  DAPL 2014.jpg

 

Uma da “Ponte Vinte e Cinco de Abril”, visualizando o Cante como uma ponte entre o Passado e o Presente, e entre este e o Futuro.

Uma ligação entre as duas margens do Tejo, Aquém e Além do Tejo, que o Cante irmana na Diáspora e liga e une os espaços e tempos do Alentejo profundo do Centro e Sul da planície, com este Tejo das duas margens do Rio, em que se canta esse Cante de Além ou de Aquém(?) Tejo.

Sempre o Tejo, como marca profundamente identitária dos Povos a que pertencemos, deste Sul de Portugal.

 

Ponte 25 Abril Foto original DAPL 2015.jpg

 

E são precisamente estas duas fotos, originais de D.A.P.L., que ilustram este Poema, da identidade alentejana.

Também porque “Almada é a Capital do Cante”.

E a “Ponte 25 de Abril” é também um marco identitário de Almada, da Margem Sul e do Alentejo, que é como quem diz de “Aquém Tejo”!

 

E anexo ainda um link para o Grupo Coral de Serpa, que para isso também temos a net e o youtube.

 

 

28º ENCONTRO de CANTARES ALENTEJANOS do Concelho de ALMADA

cartaz 28º encontro - 13-6-2015. Cortesia da Organização PNG

Conforme previsto, realizou-se no passado sábado, dia 13 de Junho, a partir do início da noite, o supracitado Encontro de Cantares Alentejanos, no Concelho de Almada, organizado pelo “Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo do Feijó”.

Grupo Coral Amigos do Alentejo do Feijó .jpg

 "Amigos do Alentejo do Feijó"

 

Com a realização estruturada para um palco montado junto ao Complexo Municipal de Desportos da Cidade de Almada, a chuva que Santo António resolveu enviar para as milharadas e hortas espalhadas pelo concelho, levou à mudança de local do evento, para o mítico pavilhão do Clube Recreativo do Feijó, uma verdadeira “Catedral do Cante” na Margem Sul.

E este é, desde logo, um ponto a realçar, a capacidade de reestruturação duma orgânica já delineada, mudando o respetivo espaço de realização; bem como a disponibilidade do Clube anfitrião. A organização destes eventos, com todo o muito trabalho que as sustenta e não é imediatamente visível, é sempre de realçar.

 

Digamos, sem sombra de dúvidas, que a sala, na sua arquitetura e design simples e popular, direciona o evento para a sua função principal: ouvir cantar e vivenciar as emoções que aquelas vozes telúricas proporcionam, transportando-nos a um Alentejo mítico, distante espacial e temporalmente, mas ali bem presente.

Quem vai a estes eventos é porque gosta, é realmente fã do Cante, das evocações que as modas nos trazem, mesmo que a realidade por nós vivida já tenha sido bem diversa do evocado pelas canções.

Experienciam-se, aí, momentos emocionalmente únicos, de facto! Lembranças que, para além de nossas, nos pertencem ou as sentimos com mais afeto, pelo que nos foi transmitido e pelo que, através delas, evocamos de Pais e Avós.

CamponesdePias. www.vozdaplanicie.pt.jpg

"Camponeses de Pias - Foto original de António Cunha. In: www.vozdaplanicie.pt"

 

O Cante é uma foice de vento a cortar o silêncio.”

Com este verso de um poema de Vitor Encarnação, lido na apresentação do Grupo “Os Ganhões de Castro Verde” poderia sintetizar o sentido e o sentir do Cante e do que se ouviu nessa noite.

ganhoes de castro verde www.seminario-natural.pt.j

 

"Ganhões de Castro Verde"

 

Participaram sete grupos.

O grupo organizador e anfitrião, “Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo do Feijó” integra-se no contexto da “Diáspora Alentejana”, enquadrada nos movimentos migratórios de Portugal, particularmente relevantes nas décadas de sessenta e setenta do século XX, com destino à Grande Lisboa, neste caso Margem Sul do Tejo.

Os restantes seis grupos todos eram provenientes do Baixo Alentejo, indefectivelmente o “Berço do Cante”.

Disseram presente os “Camponeses de Pias”, os “Ganhões de Castro Verde” e os “Cubenses Amigos do Cante” que, tal como o Grupo anfitrião, têm também cariz etnográfico.

Apresentam-se trajados a rigor, evocando profissões e padrões sócio-culturais da primeira metade do século XX, em uso no Alentejo, segundo as especificidades locais e regionais.

cuba-cubenses amigos do cante 2.jpg

 "Cubenses Amigos do Cante"

 

Os dois últimos grupos trajam de uma forma mais homogénea, sendo que os primeiros diversificam o trajar numa evocação sócio profissional variada: pastor, vaqueiro, almocreve, feitor, moço de fretes, ceifeiro, porqueiro, … trajo domingueiro, trajos de trabalho…

Neste Encontro só estiveram grupos masculinos, sendo que estes quatro mencionados são constituídos maioritariamente por indivíduos acima dos sessenta anos.

Cada grupo cantou e encantou nas quatro modas apresentadas, maioritariamente tradicionais. Hinos ao Alentejo, aos profissionais e atividades campestres; ao pão sagrado, ao tempo e aos tempos nas diversas estações; ao sol e lua, à água, elementos tão presentes e marcantes nas lides da lavoura; ao dia, ao raiar do dia e à noite; à Mulher, enquanto amada e trabalhadora…

 

Estiveram também presentes, e, aliás, com forte presença, dois Grupos constituídos por jovens: os “Bafos de Baco de Cuba” e os “Mainantes de Pias”.

Portadores de uma postura muito leve e descontraída, como os próprios nomes sugerem, têm uma fortíssima prestação em palco, fruto da sua garra de juventude e da genica com que agarram as modas.

Cantam modas tradicionais, mas aparentemente vestem-nas com outras roupas mais leves, bem de acordo com o seu trajar: calças de ganga, camisas claras. E bonés, sempre necessários para as saudações da praxe.

A uniformidade e simplicidade no traje reporta-nos para o fundamental neste cantar: o sentido e indispensabilidade do coletivo. E aí medem meças com qualquer outro grupo, mesmo de outros contextos musicais.

Com o nascimento destes grupos e a sua desejável persistência no futuro, estará assegurado o futuro destes cantares, destas modas e deste modo alentejano de estar, agora também com um cariz cultural bem mais vasto, dada a categorização a que ascendeu.

A manutenção das modas antigas é indispensável, a evocação do trajar e do modo de estar idem, mas também imperiosa será a criação de novas modas e canções, adaptadas e refletoras dos novos tempos. Ainda que o nosso Alentejo mítico permaneça sempre na nossa memória e no nosso coração!

Parafraseando a canção, soubera eu cantar e quem cantava era eu…

moda mãe cuba.jpg

E para terminar, o mestre-de-cerimónias apresentou o último grupo e deu-nos a provar o último vinho. E que vinho! O Grupo “Moda Mãe Cuba”.

Cinco elementos, cinco vozes e uma Viola Campaniça, que aqui merece uma substantivização própria.

viola campaniça in correiodoalentejo.jpg

 

Face à Solenidade do Cante, canto chão alentejano, mais marcante ainda nos Grupos Etnográficos, este grupo, ainda que inspirado no Cancioneiro tradicional, desconstrói as modas, dando-lhes um cariz completamente diverso, não as desvalorizando, apesar da brejeirice, humor e ironia com que, pelo menos aparentemente, as canta e apresenta.

A sua interação com o público, torna-os mais participantes da comunhão que se concretiza entre palco e plateia, comungar que noutro contexto de festa, levaria ao partilhar de pão e vinho tão peculiar no convívio de que foi também o nascer do Cante.

 

E vou terminar, porque esta crónica também tem que ter um findar, tal como “Moda Mãe Cuba” também teve que abalar do palco, pois impunha-se um término do Encontro, que, por eles e pelo público, a festa continuava.

Mas já era quase meia-noite e o Clube situa-se num bairro residencial, com vizinhos que têm o seu direito ao descanso e a serem também respeitados.

Assim igualmente se exprime o conceito de Cidadania!

O Cante, em Almada, voltará num outro dia.

Por agora, façam favor de consultar!

Bafos de Baco de Cuba

Mainantes de Pias

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