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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

POEMA FIGURADO (III)

POEMA FIGURADO (III)

      Perdido de si

 

Há muito quedado estava, ali, naquela ilha.

Náufrago do desejo, da incerteza, do saber, do não saber

                                                             como fazer, do ser.

Aportado, só, se apossara dele a ansiedade, o medo,

                                         a dúvida, o desespero.

Uma palmeira, simples companhia

                                 alimento duma alma dolorida.

 

Em redor, o mar…

A água mãe, a mãe das águas

                    as primeiras águas…

O líquido primeiro, de que fomos e de onde nascemos.

Memória ancestral, primórdio da existência

Repetida por cada ser nascido, renascido…

O rebentar das águas…

O libertar das águas

E a prisão primordial das águas. Sempre!

 

E tamanha a solidão, a angústia.

 

Finalmente, um barco!

Um cargueiro, um barco de guerra…

Pouco importa.

De momento, é um barco

E com ele a salvação.

(Hipotética, apenas.)

 

Perdido, nos caminhos de si

Enorme a barba, de isolamento

Ergue os braços, gesticula, acena, pula

Chama a atenção, grita, pede socorro, ajuda

                                                      a quem passa.

Pouco importa que barco, de carga ou cruzador.

Há que tirá-lo da ilha-prisão em que se encontra.

 

Inocência a sua!

Revelar-se assim aos outros. Descobrir-se.

Dizer-se desesperado, faminto, pedindo ajuda…

Cheio de fome de’amor.

Criancice a dele.

Comportamento infantil.

 

Há que riscar tudo.

 

Tapar, esconder com garatujas, riscos,

                                                a verdade.

Esconder. Revelar. Esconder.

Tapa – Esconde – Revela – Descobre.

 

É um desenho de criança

Não é um desenho para a sua idade.

 

Há que recalcar

         mas descobrir

              deixar antever, tapando,

                        o desespero

                     a angústia

                a solidão

      em que se encontra.

 

Um Homem só, barbudo

              numa ilha

Uma palmeira. O mar em volta

           p’lo mar envolta.

Lá longe… o sol e umas gaivotas.

E quase próximo, um barco

             pouco importa cruzador ou cruzeiro.

Há que pedir-lhe ajuda

Para sair da ilha.

 

Há muito quedado está, ali, naquela ilha!

 

 

 

 

Escrito em 1988.

Publicado em “A Nossa Antologia”-  X Volume – A.P.P. – Associação Portuguesa de Poetas - 2002.

 

 

COSMOS – Odisseia no Espaço 2014

Cosmos  Odisseia no Espaço 2014

Também no Canal 2 (RTP2) passa uma série imperdível, embora num horário demasiado tardio: 23h 30’, de 3ª a 5ª feira!

Mas a série não é excepcional. É excepcionalíssima.

Refiro-me a “COSMOS – Odisseia no Espaço.”

É uma 2ª edição desta série científica, cuja 1ª edição ocorrera na década de oitenta e fora realizada e conduzida por Carl Sagan, coadjuvado pela sua mulher, Ann Druyan.

Carl Sagan e nave Viking

Já nessa edição ficara encantado com a temática abordada e a apresentação pelo cientista de assuntos à partida complexos, mas que ele nos revelava de forma tão simples e extraordinariamente apelativa.

Na altura, década de 80, também li o livro “COSMOS”, em edição da Gradiva / Bolso.

Livro Cosmos de Carl Sagan

Esta 2ª edição da série não fica nada atrás da primeira. É também magistralmente conduzida, agora pelo astro físico norte-americano Neil deGrasse Tyson.

Também numa forma simples e extraordinariamente cativante dá-nos a conhecer ou chama-nos a atenção para problemas ou situações científicas ou não que, à partida, poderiam ser complexas, ainda que parcialmente possamos ter algum conhecimento sobre elas, mas que nos prendem ao écran, de modo a ficarmos a conhecer ou reconhecer o Mundo em que vivemos e a sabermos mais sobre ele e compreendermos melhor a realidade que nos rodeia.

Sim, porque a Ciência e os problemas científicos fazem parte do nosso dia-a-dia!

 

 

E é essa a magistral lição destes programas, mostrar-nos o modo como a Ciência, os cientistas e as suas decisões e principalmente de quem financia a Ciência, determinam o funcionamento das nossas sociedades!

 

Não posso esquecer o destaque que deu, num dos episódios da semana passada, aos problemas energéticos. Como não faz sentido que a Humanidade continue a utilizar os combustíveis fósseis como fontes de energia, quando o Sol todos os dias ilumina, aquece e põe em funcionamento a Vida na Terra, libertando energia limpa que o Homem não aproveita e que era suficiente para desenvolver todas as atividades em que dela precisamos. E o realce à destruição do homem sobre o seu próprio habitat, com a crescente e incontrolável produção de dióxido de carbono, que num futuro poderá levar à sua própria auto - destruição.

 

E como as ideias e descobertas dos cientistas nem sempre são compreendidas e aceites à primeira… Às vezes nem no próprio meio científico.

Ocasionalmente, as rivalidades absurdas entre alguns cientistas!

E como os interesses económicos, o imediatismo na obtenção de proveitos financeiros e a cupidez humana condicionam e limitam o progresso da Ciência e da Vida Humana.

E… E….

Pois! É uma série a não perder!

Guerra no koweit. 1991

Mas devia ser apresentada num horário menos tardio, talvez até noutros dias da semana, de modo a que fosse acessível, nomeadamente a jovens e estudantes, de qualquer Área, pois as temáticas embora importantes para todas as pessoas, são de especial realce para quem estuda.

 

 

Fontes de recolha das imagens:

natgeotv.com/pt/cosmos - national geographic channel

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cosmos

http://www.gradiva.pt/

Wikipédia, a enciclopédia livre

 

 

 

 

Um pouco mais…

Um pouco mais…

 

Um pouco mais além… Éramos Ases.

Um puco mais audazes… Campeões.

Mais umas palmas… Éramos Ídolos.

Um passo mais… E seria a Glória.

Um pouco mais de rasgo… Éramos Génio.

Um sopro mais… Éramos Deuses.

Um pouco mais de brilho… Éramos Estrelas.

Um pouco mais de luz… Éramos Sol.

Um pouco mais de sol… Universo.

 

Mais ambição…Éramos Poder.

Mais poderosos… Prepotentes.

Mais prepotência… Ditadores.

Um pouco mais de lume… éramos Fogo

Um pouco mais de fogo… já ardíamos.

 

Um pouco mais de água… seremos Mar.

Um pouco mais de mar… somos Amar.

Um pouco mais de’Amor, só…

Um pouco mais de’Amor.  E seremos Homens!

                                   Só um pouco mais!

 

 

 

Escrito em1986.

Publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Poetas,Junho de 1987.

 

Foto0589.jpg. Foto de D.A.P.L.

 

CAMINHADAS

 CAMINHADAS

 

Pouco a pouco, os Sonhos são quimeras

Arredados nos Caminhos percorridos em Outrora.

 

No tecido da urbe que habitamos

Os passos do presente registamos

Deixando sempre outros caminhos

Passos, ruas, por correr…

 

Entramos em casas, nunca em todas

Qu’impossível se torna estar em todas.

Saímos, fechando algumas portas

Que abertas, ficar deviam. Todas!

Mas nem sempre podem.

Vai havendo sempre novas portas

Para abrir.

Enquanto conseguimos.

E portas há que nunca abrimos

Fechadas “ab aeterno” pelos Deuses.

 

Mas cada vez mais quedados em nossas casas

Quando não no nosso quarto, já sem asas

Cada vez mais em si mesmo dados.

 

Por vezes nos achamos em becos sem saída

Ou em quartos sem janela

Nesta cidade cada vez menos construída

Para nós, Homens, vivermos nela.

 

Resta-nos rasgar paredes e, nelas

Inscrever o Sol, a Luz, o Mar de barcas – belas

O Tempo das calmarias sem procelas.

Sabendo que mais fácil é dizê-lo

Do que, todavia, será fazê-lo.

 

Marca-nos sempre ao Longe termos

O Campo Santo que a Natureza 

Povoou d’esguias árvores apontando

O Céu, o Astro, o Sol, a Vida!

 

E, enfim, os olhos descansaremos

Nessa imensidão Sem Fim, do Mundo!

 

 

Escrito em1986.

Publicado: Revista “Família Cristã”, rubrica “Lugar aos Novos”, Fev. 1987.

"A Nossa Antologia" - APP - XIII Vol. 2006 

 

Caminhadas. Foto de D.A.P.L. 2014

 

 

 

SONS míticos (místicos)

 

SONS míticos (místicos)

 

Sinfonia de luz, calor, cor e cigarras

Cal, barra na parede, fuga – contraponto

De nómadas ciganos trinam as guitarras

Vagabundo na planura, marcando o ponto.

 

O falar das gentes é um cantar de mouras

Ansiando Liberdade e seu Destino

O marulhar das searas maduras – louras

Compassadas pelo vento e sol a pino.

 

No silêncio da noite e luar, as relas

Gorgoleja vinho nas tascas de ruelas

Piar de mocho, dissonante e zombeteiro.

 

Requebrando saias, um rosto trigueiro

De ofegantes seios, declama com vaidade

Um Soneto d’Espanca, “Soror Saudade”!

 

Escrito em 1988

Publicado em:

Boletim Cultural Nº 7  do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Fev. 1991.

 I Antologia Poética do Círculo Nacional D’Arte e Poesia – CNAP – 1994.

 

 

 

 

ALENTEJO

Divulgamos hoje o nosso post nº 50. Que é também o 1º trabalho que colocamos em 2015. E, como não podia deixar de ser, pois também é esse o nosso propósito, damos a conhecer neste enquadramento uma poesia sobre o nosso Alentejo.

Este conjunto de vinte e seis quadras foi escrito em 1982, numa época em que trabalhava no Alentejo e resultaram da observação poética da planície transtagana nessa altura. Alguns aspetos ter-se-ão modificado. Atualmente há realidades que, à data, eram ainda ficção científica. De qualquer modo é um flash desse tempo nesse espaço, que nos é tão querido e idealizado.

 

 

 

ALENTEJO

 

Horizontes infinitos

Extensões de montados

Manchas de olivais bonitos

No meio, campos lavrados.

 

Campos a perder de vista

Vista do cimo do monte

Altaneiro como crista.

No vale, a horta e a fonte.

 

Montes quase abandonados

Sem caseiro nem patrão

Pois carros motorizados

A casa trazem o aldeão.

 

Casas de branco caiadas

Barras azuis e amarelas

Cheias de esmero, asseadas

Alegra os olhos vê-las.

 

Rasteiras, bem alinhadas

De quando em vez solarengas

Varandas, janelas bordadas

Casas, nossas avoengas.

 

Chaminés de sol e lua

Portas de cantaria

Abrindo a casa à rua

Dão beleza à frontaria.

 

Ruas de casas juntinhas

Fazem terras afastadas.

De noite é ver as luzinhas

Dar vida à planura, encantadas.

  

De dia banhadas pelo sol

Alegria e tormento

A brancura dum lençol

A secar na planície, ao vento.

 

Do Alentejo aldeias

De gente calma e fagueira

Amiga de trocar ideias

Embora nem sempre à primeira.

 

Gente mais moça abalando

P’ra Lisboa e outras bandas.

Os mais velhos vão ficando

Até que Deus queira, em bolandas.

 

Pela manhã, o Destino

Os leva à soalheira

Aquecer sangue latino

Que já falta companheira.

 

Durante a manhã, as comadres

Dominam as ruas mercando

E estando fora os compadres

Com as amigas vão conversando.

 

À tarde e à noitinha

Após um dia de trabalho

Homens enchem a tendinha

Causa de brigas e ralho.

 

Mas após tanta fadiga

No campo, a maioria

Faz bem beber uma pinga

Dá esquecimento e alegria.

 

Terminar a cavaqueira

Que à janta a mulher chamou.

Esperar sentado à lareira

Que a novela começou.

 

Migas, açorda e mais

Sopa de cachola e tomate

De miolos, gaspacho, é demais

Tanto pão e tanta arte.

 

Hoje não é tanto assim

Comida vai variando.

Borba, Redondo, enfim

Rico tinto acompanhando.

  

Após a janta, o descanso

Que amanhã é de trabalho.

Antes, um breve remanso

Aquecendo-se ao borralho.

 

De manhã o sol levanta

Trabalhador para a jornada.

Dantes a pé, agora espanta

A quem tem motorizada.

 

Lavoura, azeitona e cortiça

São trabalhos desde outrora.

Conforme a época, a liça

Novas culturas agora.

 

O tomate, o girassol

Culturas de regadio.

As barragens são um rol

Mas não chegam p’ró sequio.

 

Os serviços na cidade

Algumas indústrias também.

Desemprego, ansiedade

De quem quer algum vintém.

 

Pau bucho, chifres, cabaças

Argila, pedrinhas e linho

Nelas, flores e sonhos traças

Objetos de amor e carinho.

 

Trabalho feito com as mãos

Na cortiça, ferro ou barro.

Homens de arte, artesãos

Ourives de bilha e tarro.

 

Mas artistas todos são

De pincel ou de trator

Na tela ou terra chão.

Basta trabalhar com amor.

 

Amor que a nós, Homens, une

E à terra que nos viu nascer.

Mais nos liga que nos desune

Todos juntos a conviver.

 

 

 

Escrito nos inícios de 1982.

Publicado na VII Antologia do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, 2003.

A desilusão de ser Árvore de Natal!

 

 Foi numa tarde ensolarada, mas fria, por acaso véspera de Natal, que assentei  raízes no local que é agora a minha casa. Foi em Dezembro, que o meu dono me plantou no seu valado, junto à casa, com vista para a igreja de São Martinho. Foi em clima de festa que eu nasci, de novo, nesta cidade. Para mim foi mesmo Natal, Nascimento. E, pensei, como seria lindo, uma festa, em que todos plantássemos uma Árvore, que todos fizéssemos sempre Natal. E, ao mesmo tempo sonhei, é agora, finalmente, que eu vou ser Árvore de Natal!

E o local não podia ter sido melhor escolhido. Da minha nova morada posso avistar, altaneira, a torre da igreja, vejo e ouço os sinos repicar de contentamento, miro as crianças que passam alegres e festivas na esperança do Natal, dou alento aos velhotes que recordam a sua infância e, aos adultos, lembro o tempo de paragem e reflexão, o apelo à Paz, à Amizade e Amor, à quadra que se vai aproximando e a todos poderei desejar sempre um Santo e Feliz Natal.

 

Como disse, esse sonho de vir a ser árvore de Natal, sempre me acompanhou, no viveiro onde nasci, no entreposto/viveiro onde residi temporariamente até ser comprado pelos meus novos donos e mesmo aqui, no valado onde agora moro, ainda vivi algumas semanas nesse sonho. Ele foi a fanfarra, os foguetes, o contentamento das pessoas, a aproximação real do Natal. Mas foi já este ano que eu tive um lampejo, um corte violento e brusco, sobre esse meu sonho, que agora considero devaneio, mania, fixação até.

 

Todo esse vai e vem de Dezembro, que depressa chegou e mais rápido se esvaiu, me deixou numa tremenda excitação, euforia, enlouquecimento. Mas, passadas as festas, a azáfama das compras, as consoadas, a passagem do ano, chegado outro de novo e, com ele, Janeiro, já depois dos Reis, a vida pareceu recuperar a sua habitual normalidade, bonomia proverbial. Mas eis senão, quando, numa tarde enevoada, um destes senhores que não respeitam o ambiente, trouxe no atrelado do trator uns quantos arbustos escanzelados que, a trouxe-mouxe, arremessou para o meio de um silvado, junto de uma parede velha, perto do local onde moro.

 

Quis gritar, barafustar, chamar-lhe à atenção pela falta de respeito, pela atitude do senhor, mas a voz ficou-me embargada de comoção e espanto, não me saindo nada do tronquito onde me encerro. E ele abalou, aos solavancos com o atrelado, roncando o motor, pelo meio dos pinheirais de onde proviera. Mas a minha emoção foi maior ainda por reconhecer, nesses arbustos escanzelados, amarelecidos, esfoliados, amigos meus, pinheiros e abetos, por quem eu, no viveiro, nutrira tanta admiração e, diga-se, uma pontinha de inveja, por lhes ser destinado virem a ser Árvores de Natal.

Não resisti à curiosidade, quase saltei do terreno onde estava, bem puxei as raízes, para saltar o muro e aproximar-me desses amigos e colegas que gemiam, reclamavam da sua sorte, alguns pediam ajuda, outros já mal se ouviam nas suas lamúrias e preces e, aos poucos, foram estiolando, morrendo à minha beira e eu sem nada poder fazer.

 

Mas, enquanto viveram, morrendo aos poucos, puderam contar-me o seu destino.

 

Chegado o tempo e a altura própria, foram destinados para o que fora o seu maior sonho de glória: serem Árvores de Natal. Quando vieram os lenhadores com as suas moto-serras, embiocaram-se nas melhores vestes, empertigaram-se eretos na coluna, tremeluziram as agulhas de contentamento, piscaram olhos à moto cortante, gemeram ai, ui, num misto de prazer e dor e desfaleceram às dezenas no solo, ao ranger da lâmina serrante.

Iniciava-se o seu sonho ou devaneio…

 

Foram amontoados, empilhados uns sobre os outros, enrodilhados os abetos numa fina rede, distribuídos em camionetas por supermercados, lojas, praças, lugares e lugarejos nesta moda consumista. Mas ainda sonhavam e, por isso, valia a pena tanto sacrifício!

Regateados no preço por senhores e senhoras, pirraças de meninos e meninas, lá foram no porta-bagagem até casa, vivenda ou andar, indubitavelmente à sala, junto à televisão ou à lareira. E, uma vez aí chegados, foram devidamente abonecados: fitas e fitinhas, laços e laçarotes, bolas e bolitas, estrelas e estrelocas, luzes e luzinhas tremeluzindo, faiscando, pisca-pisca toda a noite e santo dia. E caixas e caixinhas e mais caixas, embrulhos, sacos de artigos de marca, devidamente enfeitados de lacinhos, corações e pais-natais, tudo em volta do pinheiro ou abeto. Agora sim, eram Árvores de Natal. Tinham finalmente alcançado a sua noite de glória, todo o seu glamour, apoteose, aparato, atingiram a condição de estrelas, super-estrelas. Mas, alguns, já aí se sentiram abafados pela tremenda confusão de objetos, pessoas e coisas, acessórios e associados dos festejos.

 

Mas assistiram, participaram nos festejos de Natal, vivenciaram beijos e abraços, votos de felicidade e alegria, participaram na troca de prendas, levaram até alguns safanões na euforia desta vivência, vislumbraram o fogo-de-artifício, pela janela aberta, na passagem do ano, chegaram até ao Dia de Reis, mas aqui foi dada por finda a sua função. Passaram a ser um estorvo, um estropício, um empecilho na sala e o seu destino foi, inexoravelmente, o caixote do lixo, a lixeira da Câmara, ou o aterro sanitário, quando não uns encontrões, junto à parede, no meio do balsedo.

 

“Foi este o destino da nossa quinzena de glória. Foi este o final do nosso sonho de grandeza, por que tanto ansiávamos. Não há lugar a final feliz. Ser árvore de Natal passa invariavelmente por terminar no lixo”, disseram-me, lamuriando, os meus amigos pinheiros e abetos.

 

E, perante esta dura e cruel realidade, apercebi-me então como vão e balofo fora esse meu sonho de ser Árvore de Natal.

 

- Para quê luzinhas piscando, se no céu estrelado estão milhões de luzeiros eternos?! A estrela d’alva, a estrela matutina, a estrela boieira, o set’estrelo, eu sei lá…

- Porquê bolas coloridas, se o sol e a lua cheia me iluminam os ramos e inundam todo o meu ser de luz eterna?

- Anjinhos de fantasia para quê, se crianças escorregarão, um dia, nos meus braços fortes e me subirão no tronco, na busca de mitos e heróis?

- Sala iluminada por quê, se tenho este lameiro verdejante onde vivo, vislumbro a cidade e os seus arrabaldes, os pinhais e vinhedos em redor, sinto o murmurejar dos regatos que junto a mim passam, em direção ao Rio do Tempo e do Esquecimento e as aves nas minhas ramadas pousarão e farão ninho, quem sabe! E tenho como teto a abóbada celeste e como lustre o sol, a lua e as estrelas?!

 

E foi assim que eu, de nome vulgar Castanheiro, do latim Castaniariu, de nome botânico, Castanea Sativa, da família das Castaneáceas ou Fagáceas, perdi a mania de vir a ser, um dia, “Árvore de Natal”.

 

 

 

Este texto corresponde à 2ª parte (final) do texto publicado neste blog, a 11/11/14.

Deste conto tenho várias versões já publicadas noutros suportes, a saber:

  • Boletim Cultural nº 75 do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Ano XVI, Dez. 2005 – “Sonho e desilusão de uma Árvore de Natal!”.
  • Boletim Cultural Nº 80 do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Ano XVII, Dez. 2006 – “A ilusão de ser Árvore de Natal!”.
  • Boletim Cultural nº 109 do Círculo Nacional D'Arte e Poesia, Ano XXIII, Dez. 2012 – “O impossível sonho de um Castanheiro que queria ser Árvore de Natal!”.
  • Jornal “A Mensagem”, Nº 481, Ano 44, Nov./Dez. 2014 -“O Castanheiro que sonhava ser “Árvore de Natal”.

 

 

 

 

Domingo de Futebol

 

“Domingo de Futebol”

 

“Hoje, dia 14 de Dezembro de 2014, vamos divulgar um poema que já anda para ser publicado há algumas semanas.

Teria que ser publicado em domingo, de preferência em Novembro e com sol, porque futebol há sempre!

Conviria ser também em dia de “Clássico”, preferencialmente o Benfica a jogar em casa.

Com tantas premissas e restrições, nunca mais calhava o dia!

Chegou hoje.

É Domingo, não me parece que haja sol, há futebol e os dois grandes a jogarem. Só que o Benfica não joga na condição de visitado, pois vai ao Porto. Não há, hoje, um Benfica Porto, mas sim um Porto Benfica!

No “Clássico” que o poema indiretamente evoca, o Benfica ganhou por 3 -1. E também venceu o campeonato, ficando o Porto em 2º lugar.

Pois o que desejamos é que a história se repita hoje, 14/12/14. Que o Benfica vença no Dragão e que ganhe o campeonato!

Segue o poema…”

 

 

O texto anterior foi escrito no sábado, 13/12/14, à noite, para ser publicado no domingo de manhã. Só que a Vida, por vezes, “prega-nos partidas” inesperadas e, por isso, só hoje, 3ª feira, volto a ter possibilidade de “pegar” no computador.

De modo que o poema mantem-se. O enquadramento explicativo é que é diferente.

O que era prognóstico e desejo passou a ser uma certeza.

O Benfica ganhou, no estádio do Dragão e também com um diferencial de dois golos. Continua a liderar, agora com seis pontos de avanço relativamente aos segundos classificados.

Que assim continue e no final do campeonato se repita o facto de 1982/83: O Benfica a vencer o campeonato!

Divulga-se então o poema:

 benfica 2.jpg

“BARRETES”

“Domingo de Futebol”

 

 

Hoje é domingo…

E cheio de sol.

Lisboa é linda

Pois que ainda

Tem futebol.

 

Muitos barretes

E cachecóis.

Peúgas soquetes

Dos apanhados

Apaixonados

Dos futebóis.

 

Que barretes enfia

Somente quem quer.

Azuis ou vermelhos

Ou outro qualquer

Novos ou velhos…

Dão ilusão

Espontânea alegria

A quem os enfia.

Homem ou mulher

Criança ou adulto

Integram num culto

Na mesma irmandade

Da fraternidade.

E quem na cidade

De qualquer idade

Solitário entre gente

Que não conhece…

Se os vê de repente

Logo lhe apetece

Travar amizade

Com outro alguém

Também zé-ninguém

Da mesma irmandade.

 

031031_120.jpg

 

Notas:

- Poema escrito em 14/11/1982, em Lisboa, num domingo de sol, em dia de Benfica - Porto.

Publicado em: Boletim Cultural nº42, do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Junho 1996.

As imagens foram retiradas da net.:

loja.slbenfica.pt

loja.fcporto.pt

.

 

 

 

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