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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

“Fortitude” - Série Britânica – Episódio XI

“Fortitude”  – Episódio XI

2ª Feira – 05/10/2015

RTP2

in takepart.com

Preâmbulo

 

“Não é de um hotel que precisamos, em Fortitude. É de uma morgue maior!”, dissera Hildur, outra vez!

 

E eu acrescento.

Neste episódio e no seguinte, o que irão precisar é de um inseticida! De um potente inseticida!

 

E lá vamos nós à narração!

 

Dan in theguardian.com

 

Após alguma indecisão de Dan, alguma é como quem diz, que o pedido de Henry foi formulado no episódio anterior, décimo, e cumulativamente interpôs-se o fim-de-semana, de modo que só ontem, 2ª feira, no episódio XI, é que se processou a intervenção de Dan.

Bem, de helicóptero chega-se rapidamente. E ao chegar, Dan, logo constatou a dimensão do desastre. Henry, estendido na neve gelada, um tiro na cabeça, vermelho de sangue a colorir o branco gelado.

Encostado à moto, Morton, afinal ainda não estava morto, apenas moribundo, eu é que julgara que ele morrera na 6ª feira. Mas não! Esteve todo o fim-de-semana para morrer, que sábados e domingos os serviços públicos estão encerrados. Morton, quase acabado, ainda esperava que o xerife chegasse, mas não quis que o levasse para ser socorrido, queria ficar já ali, que o glaciar é um sítio ideal para se encontrar a serenidade e a luz e com ela a morte, para mais com a garantia de se poder ficar congelado até à eternidade, ou até à próxima alteração climática!

Mas antes de partir, quis que Dan lhe contasse a verdade!

E Dan contou. Verdade nua e crua, trágica e cruel, para mais tendo ocorrido num dia sagrado. Num dia de Natal! E soubemos, através do relato para Morton, como tudo ocorrera, e que Dan sempre fora, de facto, o assassino de Billy Pettigrew. Que guardava esse crime na sua consciência também atormentada.

Não vou relatar os pormenores dos trágicos acontecimentos a esse assassinato associados. A foto apresentada, no post anterior, diz tudo.

Lembrar, só e apenas, que amor e ódio são duas faces da mesma moeda, que foi por amor a Elena, que Dan entregou a morte de urso, Billy, por quem o amor à sua amada se transformou em ódio a Billy, que a quisera possuir, agrilhoada à cabeceira da cama! Grilhão que serviu para acorrentar o geólogo ao poste do farolim, como isco para ursos tresloucados de fome.

“Confessa! Ou nunca terás Paz!” Lhe disse Morton, para que Dan fizesse.

Só depois, Morton morreu, suponho que em paz. Soube a verdade do que buscava, desde que chegara a Fortitude, que fora essa a sua razão de chegar. E, sabendo, já poderia partir!

Que partiria, o seu corpo, não para o Continente, que ele, como cidadão britânico, também é de uma ilha! A sua alma, essa terá ficado eternamente aprisionada no gelo do glaciar.

 

E Dan, após muitos avanços e recuos, conseguiu confessar a Elena, o que por várias vezes e em diversos episódios, ela lhe perguntara. Se fora ele que matara Billy.

Confessou e uma vez confessado, também ficou mais liberto para lhe confessar, ao seu jeito desajeitado, o seu amor, desde que Elena chegara a essas terras de fim de mundo gelado.

E depois de explicados os comos e os porquês, textos e contextos, de tudo o que e como e porquê se passou, Elena rematou à laia de conclusão:

“Estamos juntos, sozinhos!”

E haverá melhor definição para aquele amor?! Aguardemos o último episódio, que provavelmente, como é apanágio das séries, deixa tudo em aberto, para futuras temporadas. Estratégias de guionistas!

 

Voltando a Billy, morto logo no 1º episódio, mas cujo tema foi estruturando todo o enredo.

Nessa célebre, trágica e fatídica noite de Natal, ele, com os copos, desatara a língua com o russo Yuri, sobre o célebre tesouro escondido no glaciar. Centenas, milhares (?) de presas de mamute, aprisionadas no gelo! E, após a briga com Eric, para além de ficar com as ventas partidas, também perdeu o célebre documento cartografando o local de tão precioso e macabro achado! Documento que o russo apanhou.

Com base nele, Yuri, estudara as coordenadas do local e, neste episódio XI, com a ajuda de Max, resolveu assaltar o armazém onde se encontrava a broca para furar o gelo do glaciar, transportá-la no camião onde ela estava acondicionada e irem procurar o cemitério dos mamutes, para recolherem o marfim.

Consegui-lo-ão?!

Também só o saberemos no derradeiro episódio. Que Eric, apenas armado de rifle, também se dirigiu para o local onde eles se encontram, mas pensando que fora Jason que roubara a broca!

yuri in theguardian.com

 

Que Jason, também já sabemos, está igualmente possuído por essa doença que atacou Liam, que matou Charlie Stoddart, o cientista; Liam que contaminou Margaret, a médica; que contagiou a filha, Shirley, que atacou a própria mãe. “Doença” que também terá contagiado e esventrado Ronnie, que estará escondido na cave da sua própria casa.

“Doença”, que tudo indica terá sido despoletada na sequência da descoberta macabra do mamute, que Ronnie e Jason esconderam num armazém, para onde Jason se foi refugiar novamente, obcecado por tão terrífico achado, que tantos dissabores trouxe à pacífica Fortitude. Antes tivesse ficado onde estava, ou tivessem tido o procedimento correto, dando a conhecer à comunidade científica, que até dispõem na ilha, que teria procedido com os formalismos adequados e exigidos nos protocolos próprios.

Mas a ganância, a ambição, a fome do dinheiro fácil, sobrepõem-se a tudo o mais!

E nisto ficamos. Jason agarrado ao mamute, após ter passado no laboratório e ter pregado um susto de morte a Natalie.

E a comunidade julgando que fora ele o autor do roubo da broca.

 

E pergunto eu. E Carrie não terá sido contaminada?!

 

No episódio apenas soubemos que ela, juntamente com Elena, foi visitar o amigo Liam. E que foram recebidas por Jules e que Frank também apareceria um pouco mais tarde.

E foram conversando todos, circunstancialmente!

 

E vamos para o excerto final desta narração.

 

A parte científica, que é o tema do enredo que ainda está por deslindar, uma vez que em princípio, os principais crimes estão esclarecidos.

 

in digitalspy.co.uk.jpg

 

Natalie e Vincent continuam nas suas investigações e centram-nas no cão do cientista, que, quando Vincent entrou na cozinha, onde estava o corpo de Charlie, reagiu muito agressivamente para Vincent. Que o cão poderia ter sido contaminado por aquilo que contaminou o dono.

Por acaso, ironia da sorte, ou perspicácia do guionista, o dito cujo estava para ser embalsamado, pelo já falado xamã, que não queria sê-lo, que era apenas embalsamador, conforme referiu a Henry.

E fazendo autópsia ao animal, inicial e aparentemente inconclusiva, mas graças à persistência de Natalie, acabou por ser descoberto um verme estranho no interior do tubo digestivo do cão.

O que seria? Como evoluiria?! Que o verme corresponderia a um estádio larvar de desenvolvimento de outro animal qualquer. E o que será?!

 

Não tardámos a saber de forma bem preocupante e arrepiante!

 

Os jovens cientistas decidiram avançar na investigação e partir para a pesquisa na própria médica, Drª Margaret, não sem antes se terem questionado sobre a ética de tal procedimento numa pessoa ainda viva!

E, foram!

Mas a evolução natural das coisas não se compadeceu com quaisquer procedimentos ou pruridos éticos ou não éticos.

Estando Vincent no compartimento isolado em que a Drª Margaret estava deitada, e começando a observá-la, foi ficando sem palavras, mudo de espanto, admirado e estarrecido com o que os seus olhos viam! Sem acreditar, nem dizer palavra.

E até nós, apesar de sabermos estar em ficção.

Do rosto, dos braços, do corpo, da senhora, formavam-se furúnculos, abriam-se pústulas, de onde brotavam dezenas, centenas de insetos voadores que encheram o compartimento.

 

De onde vinham tantos bichos?!

Lembremos que as zonas boreais, as planícies de tundra, no verão boreal, são infestadas por milhões e milhões de mosquitos que fazem a vida negra às renas.

 

E aquela bicharada toda terá ressuscitado do túmulo em que estivera trinta mil anos guardada no gelo do corpo dos mamutes? E, agora, subitamente tendo encontrado hospedeiro adequado, regressavam à vida, passados milénios?!

 

Aguardemos como irão proceder para extirpar tal ameaça.

Que Natalie ainda não havia entrado no compartimento isolado e providenciou a vinda de Dan, o xerife, que no exterior já observava aquele aterrador espetáculo.

E como exterminá-los sem eliminar também Vincent, encerrado também naquele contentor de morte?!

 

Quando vi a cena dos insetos a brotarem do corpo da médica, não pude deixar de me lembrar do filme “Allien – O Oitavo Passageiro”, quando aquele ser estranho brotara repentinamente do corpo do astronauta! Esse fora um viajante no Espaço!

Aqueles, viajantes no Tempo!

 

 Ver aqui, SFF

 

“Fortitude” - Série Britânica - Episódio V - Se o ADN nunca mente...

“Fortitude” - Episódio V - 6ª Feira – 25/09/2015

RTP2

prainting.practice.com 

Se o ADN nunca mente, então quem mente?!

Ou como a euforia pode levar à loucura.

E os peculiares Caminhos do Amor!

 

Pegando na bola da última narrativa, sobre o triângulo amoroso, Trish, Eric e Hildur. Se a governadora não sabia ou fingia não saber, agora, se não sabe é porque não quer, ou não quer ver. Que o abraço entre os dois amantes, no hall do departamento policial, não engana ninguém. Tal o afeto e a força do amor escondido!

Então a Trish está bem?, perguntou Hildur. Não, a Trish não está bem. Está desfeita!, respondeu Eric.

 

E continuamos nesta área do campo narrativo. A do amor.

Que há casos preocupantes, não sei se efeitos da euforia provocada pelas condições climáticas de Svaalbard!

 

O professor e a sua Shirley são um caso patológico. A rapariga já está anafadinha, como se vê, abusa dos hambúrgueres, como se observa no comensal de Helena… e o mestre ainda insiste em que a moça coma sempre mais uma colherzinha, de uma comida processada à base de natas, que até lha mete pela boquinha, como se ela fosse um ganso, a enfiar-lhe gorduras pelas goelas para lhe deformar o fígado… Estranho e louco amor aquele, para na cama lhe dizer que ela está no bom caminho de um ideal de beleza, enquanto a acaricia nos bracinhos rechonchudos e lhe vai dando cabo da saúde.

A mãe de Shirley, Margaret, a médica de serviço na comunidade boreal, não aprova, vê-se no seu olhar de preocupação materna, até porque a filha, que tanto ama a mãe, lhe dá carne de baleia e lho diz a meio da refeição, como se dissesse que lhe serve maçã bravo esmolfe!

Inusitado e estranho amor!

 

E ainda de amor se trata…

A médica foi à prisão tratar de Frank, todo escavaqueirado por Dan, isto porque Frank ama e é amado por Elena, que não ama nem tem nada de amor com Dan, macho assim rejeitado, que o amor que lhe tem a ela, nele se transformou em ódio a Sutter, a ponto de o ter deixado, macho rival e pelos vistos alfa, naquele estado lastimoso de meter dó. Que a suposição de que ele seria o assassino do cientista, porque uma camisola ensanguentada, achada na casa de banho de Frank Sutter, a essa suposição poderia ter levado, apenas foi o pretexto inconsciente e irracional, para eliminar e sobrepor-se ao concorrente e vencedor. Também efeito desse estado de espírito resultante dessa mudança da noite eterna, para o quase sempre dia, mas também prova que os instintos animais mais primários permanecem eternamente no homem, emergindo com mais facilidade em situações extremas como as que se vivem nesse ambiente inóspito. E, mesmo no dia-a-dia. Basta lermos as notícias e relancearmos as redes sociais!

Ambiente de onde ainda provirão estranhas ameaças, que talvez Billy tenha descoberto, que Charlie também já conhecia e talvez, por isso, tenha morrido.

Que naquele espaço e tempo tão peculiar nem tudo é racional!

Nem sequer se sabia se o sangue da camisola seria de homem ou de animal, muito menos identificá-lo como pertencente a Charlie Stoddart, que só se soube mais tarde neste quinto episódio, quando já todo aquele tresloucamento de Dan acontecera, ainda no episódio quatro.

 

E ainda de amor vamos falar e também preocupante.

O amor paternal de Ronnie pela filha Carrie que o leva a levar uma criancinha para o meio de nenhures, onde só existem ursos famintos e desregulados também, que o ritmo biológico daquelas paragens de fim de mundo está-se alterando e ainda se aguardam novas, preocupantes e extraordinárias alterações.

Que a guarda numa tenda de campismo, a meio de uma paisagem gelada, ainda que exorbitantemente bela, mas de que serve a beleza, se a vida está em risco e ameaçada por múltiplos e variados perigos, conhecidos uns e outros de que se espera conhecer novos conhecimentos.

Ao mesmo tempo que a sossega e tranquiliza, mentindo-lhe, lhe ensina sobre o poder dos glaciares.

Que quem deveria andar na busca deles, como de todos os que eventualmente se perdem naqueles ambientes, isto é, Frank Sutter e Dan, estão estupidamente presos no departamento policial, por conta da doideira de Dan, num inquérito policial conduzido por Morton, na presença de Hildur, que já lá vamos.

E assim estão todos esquecidos de pai e filha, mas não o guionista que no-lo lembrou ao longo do episódio, mostrando a situação precária e limite em que estão, que o mineiro até já tem uma das mãos quase ou mesmo queimada.

 

E já que pegámos no inquérito, por aí vamos… que do amor ainda quero falar.

 

Morton, detetive britânico, ao serviço de Sua Real Majestade, The Queen, veio a estas terras para inquirir sobre a morte de Billy Pettigrew, igualmente cidadão do Reino Unido, como já sabemos. Agora com o assassinato de Charles Stoddart assumiu também a liderança da inquirição do caso, coadjuvado por Hildur, a governadora da ilha e da comunidade internacional Fortitude.

Inquérito que incidiu prioritariamente em Frank, que negou ter algo a ver com o assassinato, o que separadamente foi confirmado tanto pela mulher, Jules Sutter, como pela amante, Elena, através das questões e problemáticas sabiamente colocadas pelo guionista na boca do detetive.

Dessa inquirição outras respostas colaterais foram obtidas, outros conhecimentos da trama foram sendo desvendados tanto para nós espetadores, como para os personagens do enredo.

Destaco o que se soube de Elena, que Morton até já lhe perguntara de que fugia ela, e soubemos que fugia dela própria. Que já se chamara Esmeralda, algures numa terra de Espanha, que fora outra pessoa, que já se passaram mais de sete anos, que um psiquiatra lhe dissera que os átomos, palavra que não soubera designar, mas que o detetive ajudou, que os ditos cujos mudam nas pessoas a cada sete anos. E, que sendo assim, que ela acreditava na palavra de psiquiatra, ela que fora Esmeralda, agora era Elena!

Que muito aqui fica por contar sobre Elena, antigamente Esmeralda, ambos nomes lindos que o guionista soube bem escolher. Esmeralda, o mesmo da cigana do “Fantasma…” e Helena o da mítica de Tróia, ambas mulheres sedutoras.

 

E sobre o inquérito, muito mais fica por narrar, que não é propriamente propósito da minha narração, o de ser fiel e fidedigno à primogénita narrativa.

E ainda sobre o dito e cujo, assinalo, não me lembro bem se no episódio soubemos no decorrer da inquirição se já no fim, que o sangue da t-shirt era do cientista assassinado, Charles Stoddart.

Logo Frank Sutter, contrariamente ao que aparentemente houvera sido concluído, era o assassino!

 

Só que aqui, e também não consegui perceber outra vez, Dan teve mais um dos seus ataques de “gletti”. E que Frank não era o assassino e que não podia ser, e barafustava como só ele sabe, quando parece que está possesso, que às vezes é só o que nesta série se parece sugerir, que alguns personagens são possuídos por forças estranhas e irracionais. Comportamento que parece contradizer o que tivera no episódio anterior, em que agredira Frank.

Mas por outro lado esta atitude de inocentar, agora, o outro macho, alpha, só confirma o que escreveramos anteriormente, que toda a animosidade e agressão dirigida a Sutter era motivada por pulsões sexuais recalcadas.

Algo que o guionista nos sugeriu também, bem como a todos os outros personagens da série, neste 5º episódio, na sequência e decurso do inquérito.

Uma das conclusões colaterais…

youtube.com

 

Voltamos, e para terminar esta narração tão parcelar e parcial, a de amor falar.

No de Frank e de Elena, que é amor e paixão, que até o fez esquecer o filho doente, para seguir a fogosa espanhola, que indo junto da casa dele, ao atirar-lhe uma pedrinha à janela como sinal, lhe fez sinal e o chamou para uma casa isolada aonde estiveram.

Que ambos confirmaram separadamente no inquérito, como firmaram o que estiveram fazendo, que ele até o disse usando vernáculo, que eu não escrevo aqui por pudor, que este é um blogue em que, até ao momento, ainda não se usaram palavrões. Que acho não deverem ser usados a torto-e-a-direito só porque sim, mas também não vejo objeção, quando devidamente contextualizados.

O que até poderia ter sido utilizado aqui!

 

E para findar, findo com a descrição infiel, que as imagens dizem mais que palavras, do acontecido no final do episódio, em que Dan, nessa sua tresloucação, se dirigiu a casa de Frank, onde estava apenas a esposa, Jules, que ele está na prisão e o filho no hospital, e revolteou tudo à procura de não sei quê, muito menos a mulher, também espantada com aquele desregulamento de alguém, Dan, com quem há pouco até conversara tão calmamente.

E Dan procurou, e tanto vasculhou, que acabou por encontrar, no quarto do miúdo, Liam, detrás da cama, uma outra t-shirt também ensanguentada.

Estranha e nova descoberta!

Que a primeira camisola ensanguentada revelara ser sangue do assassinado, mas Frank sempre dissera, ao ser inquirido, que tinha a camisola dele com sangue, porque o filho tinha um abcesso que rebentara e lhe sujara toda a t-shirt.

E, agora, aparecia uma outra camisola, igualmente toda ensanguentada.

Depois não entendi a subsequente sequência narrativa, não percebi se ainda estavam a narrar o episódio cinco, se era já uma sinopse do sexto, mas falaram de um xamã, ou qualquer coisa assim, que Frank não era de facto o assassino, não sei…

Aguardemos o episódio seguinte, o sexto, só na próxima 2ª feira.

 

E que terá sido feito do documento roubado e de quem o roubou?!

 

E, obrigado por me ter lido até aqui, diz o texto narrado, e eu, narrador infiel.

 

 

“Hospital Real” – 5º Episódio

Série da RTP2

 

Pelos vistos esta série é, afinal, mais demorada do que previra. Sempre pensei, dado o tempo de cada episódio, que fosse para concluir numa semana.

O enredo também é muito mais complexo do que parecia e as conclusões vão-se demorando.

A qualidade da peça fílmica, o rigor do trabalho desenvolvido, sob variados aspetos, assim o exige!

 

Santiago de Compostela  e Monte Sacro in wikipedia.jpg

 

Situemo-nos…

 

O espaço da ação decorre na cidade de Santiago de Compostela, maioritariamente no Hospital Real. Depreende-se que filmado em espaços naturalistas, provavelmente não no espaço original, uma vez que o antigo Hospital é agora um parador de luxo, pousada, como se designa em Portugal. Pareceu-me ter lido qualquer coisa sobre Pontevedra…

 

Asalto de ladrones. GOYA 1794. in wikipedia.jpg

 

O tempo, a que se reporta este exercício de reconstituição cuidadosa, situa-se no final do século XVIII, na última década, poderíamos precisar 1793.

Menciono esta data, porque já várias vezes e, a propósito de França, em que o novo médico estudou, um “afrancesado”, a propósito da França revolucionária, foi citado que haviam cortado a cabeça ao Rei. Facto que ocorreu em 21/Janeiro/1793, data em que Luís XVI foi decapitado.

Também já se ouviu sobre o perigo de guerra com a França. Deduzimos que a Espanha ainda não estaria a participar na designada “Campanha do Rossilhão”, em que Portugal também viria a envolver-se.

Também designada “Guerra dos Pirenéus” ocorreu de 7/03/1793 a 22/07/1795, sendo que a Espanha declarou guerra à França em 17 de Abril de 1793.

 

Execução Lu is XVI. in wikipedia.png

A decapitação do rei francês e a declaração de guerra da Espanha à França estão relacionadas na realidade e também na série.

Pelo que poderemos deduzir que o tempo em que se desenrola a ação da série apresentada tem decorrido neste intervalo de tempo: primeiros meses do ano de 1793.

 

Voltemos ao enredo.

Pouco a pouco ele vai-se desvendando.

 

No que respeita aos crimes em série, “a investigação está num ponto morto”, palavras de Dom Daniel. E o assassino literalmente debaixo das respetivas barbas.

Também para esta equipa de investigação o conceito de “serial-killer” ainda não era conhecido, ainda não tinham chegado à era do cinema…

 

O nosso objetivo é o Hospital Real”, repete-se e relembra-se esta frase, novamente proferida pelo Alcaide, para Duarte, o assassino, mudo que não é mudo, que cada vez se revela menos “pau-mandado”, apesar de ser “homem-de-mão” de outros poderosos.

Mas mostra-lhes também, e sempre mais, o seu próprio poder. A junção de um veneno (?) no vinho do Alcaide. A recusa em servir-lhe mais água… O sorriso cínico que entreabre para quem espera vingar-se…

E até que ponto vai o seu próprio poder ou estará ele ao serviço de outros ainda mais poderosos?! Até onde vai a sua própria autonomia?

 

Porque interessados em controlar o Hospital não faltam.

Para além dos que já conhecemos, outros se nos deparam.

A chegada do novo capelão-mor isso mesmo nos revela.

Ex jesuíta, tal como o fora o Padre Damião, tal como foi o atual Inquisidor, têm eles esse objetivo, enquanto membros do Clero. Como nos revelaram neste quinto episódio.

Recuperar para a Igreja um Poder que já fora desta Instituição.

Disfarçadamente, enquadrados noutras Ordens Religiosas, uma vez que os Jesuítas haviam sido expulsos de Espanha vinte anos antes, movem-se na sombra, disfarçadamente, para conseguirem tal desiderato.

Consegui-lo-ão? Num mundo e numa época em que se vislumbram grandes convulsões e mudanças tanto para Espanha como para toda a Europa e Américas, na sequência da Revolução Francesa, das Campanhas Napoleónicas que em breve se iniciarão e dos Movimentos Liberais, que na sequência destas eclodirão?!

Provavelmente não.

Entregue a direção do Hospital a um secular, Dom Andrés Osório, amigo do Rei, com poderes económicos de gestão e também jurisdicionais, no campo cível, reconhecia este a importância da nova classe social em ascensão, a Burguesia. Literalmente, o Rei ao entregar a gestão do Hospital a um burguês, retirava poderes tanto à nobreza como ao clero, e em seu próprio proveito, claro.

Porque o Hospital era imensamente rico!

 

Mas enveredemos por outro aspeto do enredo.

 

O “herói”, que continua apaixonado pela “mocinha”, frise-se, fez novamente das suas…

Enquanto jovem médico, o Doutor Alvarez de Castro, arrebatado, ainda inexperiente, mas imbuído de convicções e certezas próprias da idade, da sua experiência parisiense e ideais revolucionários, acha que deve fazer só o que “a sua consciência lhe dita” e novamente fez asneira.

Recusou-se a seguir ordens dos seus superiores hierárquicos, tanto no plano profissional como administrativo.

Não quis garrotar o pé gangrenado de um paciente, quis aplicar uma pretensamente nova metodologia e “a coisa deu para o torto”…

Foi expulso da Instituição e não fora a lucidez de Don Sebastian Devesa, cirurgião-mor, que o tem em grande estima, e nele reconhece qualidades e competências, apesar dos arroubos da juventude, e estaria no desemprego… E a Família falida, de que ele agora é o chefe.

 

E a propósito de Família

A sua Mãe, Dona Elvira de Santa Maria, agora desamparada, mostra cada vez mais protagonismo em cena.

Para além de se humilhar perante Dom Andrés, uma nobre ajoelhar-se perante um burguês, a mendigar a readmissão do filho dileto, e a ouvir uma recusa, é ainda ameaçada de morte pelo amante da filha, Capitão Ulloa, militar e sobrinho do Intendente e um pinga-amor, que já se embeiçou pela iniciante de enfermeira, Olalla.

Aguardemos cenas dos próximos capítulos…

 

E a nossa freira chefe, enfermeira mor, irmã Úrsula, na sua postura seráfica e esfíngica, sempre sorrateira à espreita, “olhos e ouvidos” da Inquisição, sempre a delatar… “Limito-me a cumprir ordens da Santa Madre Igreja”! Ou dela própria? Qual o seu real papel em todo o desenrolar do enredo?

 

E não posso deixar de observar como eram as práticas médicas na época.

Com os conhecimentos possíveis, escassos e limitados; as restrições morais e religiosas à experimentação, base do conhecimento e desenvolvimento científico; a inexistência de antibióticos, desconhecimento dos micróbios; a não esterilização de instrumentos de uso clínico, as condições de higiene e alimentação precárias, apanhar uma doença era ser portador de sentença de morte.

Daí se compreende, apesar do aparente cinismo e desumanidade, da recusa de entrada da mulher prostituta no Hospital, que ocorreu no terceiro episódio e foi causa da primeira diatribe do jovem médico, Daniel.

A amputação de um membro a um doente, sem anestesia, com recurso a aguardente e uma rolha na boca, sem instrumentos cirúrgicos adequados, teria que ser um ato de grande coragem para todos os envolvidos.

 

E termino, que a crónica já vai longuíssima… com falas de Daniel e Ollala, ou não sejam eles os protagonistas principais da peça…

Daniel:

- Perdi meu pai.

- Perdi meu trabalho.

- E, agora, perdi-te a ti!

Olalla:

- Luta pela tua família.

- Luta pelo teu trabalho.

- Luta por mim!

INTERSEÇÕES

INTERSECÇÕES

 

Decepados os sexos, cortadas as mãos

Desfigurados os rostos

Mutiladas…

Imóveis!

Erguiam-se as estátuas

À beira das estradas.

 

Intersetando a imagem

Cruzando o recorte das estátuas,

Velozes…

Corriam os automóveis

Imagens fugidias, impressivas,

De movimento feito tela

Sobre que arremessadas foram

                                            tintas.

 

A Memória do Tempo: as estátuas

E um tempo construindo sua memória:

- os automóveis. Auto Móveis.

Movimento opondo-se à Imobilidade.

Dois objetos se contrapondo num terceiro: o televisor.

No qual a memória foge

Como no real, em écran desfocado, redutor.

Algum dia sendo, num futuro…

Três objetos carregados de Memória

                                       entretanto perdida

Significantes do Tempo que, passado,

Unirá uma vez mais três objetos.

Destituídos da sua condição de uso

Desprovidos de utilidade.

Expostos Algures… ou abandonados

À Indiferença dos passantes

Nesta via, vida, sem finito.

 

 

 

Escrito em 1988.

Publicado no Boletim Cultural Nº 59, Ano XII, do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Maio 2001.

 

 

 

 

Numa Cidade sem Tempo...

 

Numa Cidade sem Tempo

                         Com(Templo)!

 

Contemplo o branco!

Sempre a brancura das paredes a povoar-nos a Memória.

Ressequida a paisagem: tons castanho, creme, ocres, amarelos

De quando em vez, uns verdes (lapsos de pintor)

Vermelhos (lembranças de lutas, de conquistas, violências).

Transversais barras riscam o branco da monocromia:

- Margens dum espaço de rodapé colorido.

 

E o horizonte… a perder de vista!

Sem limite, a terra nos marca o Destino

Nos espraia sem (ha)ver praia.

É ponto de partida e de chegada.

 

Por aqui ficaram muitos Povos

Perderam-se nas searas, na terra fértil.

E sendo perecíveis as sementes, morrendo e nascendo cada ano…

Quiseram intemporizar-se nas paredes, nas pedras que ergueram.

Cantaram hinos em mármores e granitos!

Que o Pão nos sustenta, mas todos-os-dias

Se come, se dorme e… se morre um pouco.

Levantaram-se colunas, menhires erguidos proclamaram

Louvores à Fertilidade, à Deusa – Terra (Mãe – Fecunda)!

E ao Homem, agente transformador (Fecundante!)

E Templos e Igrejas, aos Deuses

Sublimação dos homens, cristalização dos Ideais. Apenas!

Que os Deuses nunca existiram, Além da Imaginação

                                                                            Dos Homens.

 

Nem sem ela, o Céu e o Olimpo.

 

Ficaram as folhas de acanto, petrificadas, nos capitéis coríntios.

 

Em linguagem marmorificada, dizem-nos: 

“ – Antes de os homens existirem à face da Terra

Mesmo antes de a terra o ser

Já nós éramos.

Éramos muito antes do Antes.

Somos muito antes mesmo de serem o que são, as folhas que somos.

Muito antes das Plantas.

Existimos muito antes de nos chamarem o que nos chamam.

 

Só muito Depois vieram os homens.

E vieram muitos e depois muitos mais por nós passaram, até que nos chamassem.

Pedras nos chamaram, calhaus, pedregulhos, pedra rija e outros nomes…

Que esquecemos.

Até que nos dignificaram, chamando-nos mármores.

E Sempre por nós passaram, por muitos e muitos Tempos, os Elementos em nós

Permanecendo imutáveis. Intemporais.

Até que há pouquíssimo tempo passaram uns Homens, de certeza dados à Poesia

Que em nós viram plantas, flores ou somente eles próprios, ou partes suas

Ou as suas partes sublimadas.

E, sendo eles mortais, temporais como as plantas

Quiseram simplesmente eternizar-se, eternizando-se, transformando-se-nos.

 

E, eis-nos contemplando a Cidade dos Homens, deste alto, infinitamente intemporais

Marcando num curto espaço das nossas vidas, como Pedras, a precaridade da vida dos homens

De número tão infinitos, mas tão finitos de Tempo.

 

E os homens, mesmo os que Homens foram, continuaram passando.

 

Chegados e partidos!

 

E nós aqui estamos em capitéis coríntios, sobre colunas graníticas

Formando o Templo.

Sustentando o Céu, que sobre nós se ergue!”

 

E, nesta cidade crescida das lavouras

Do rasgar do ventre criador pelos arados

Dos campos ondulantes de trigais

(Ilusão de mares balouçados pelos ventos)

Lembra-me outra cidade… minguada de terras

Sem arados nem trigais, mas com excesso de águas

Navegando na laguna, transbordando por ciclos.

Afundando-se no berço em que nasceu e prosperou.

 

(Nos Lóios, em painéis de azulejos

Essa arte sublime de portugueses

Corre a vida de Lourenço

Patriarca – santo de Veneza.)

 

Contraste com esta cidade que contemplo

Sempre minguada de águas e terras a perder de vista.

 

Em ambas, a marca do tempo nos lembra

A precaridade da Existência.

 

Se uma se afunda lentamente

O mar fazendo ondas no chão da Catedral

A corrosão do ar salgado leprosando os calcários…

Nesta, não falarei de monumentos construídos, destruídos, reconstruídos…

Lembrarei somente esse macabro achado:

Revestida de ossos, a Capela assim chamada

Nos situa no presente – futuro que recalcamos.

 

E que dizer das praças?!

Nas mais belas praças, lugar de Homens

O sol num céu azul

A luz ferindo a vista

Reflete-se do branco das paredes…

No centro, gotejando, a água das fontes

Corre pura e cristalina.

 

Se na do Geraldo a fonte, de perfeita

“Bien merece ser coronada”.

Na de Moura, um globo, o Mundo

Distribui com parcimónia a água

Pelos quatro pontos cardeais.

 

E por que corrermos mais

Se nesta cidade se resume

A nossa condição maior de Portugueses

O nosso orgulho de Humanidade?

 

Nesta cidade com Templo

De colunas e capitéis coríntios

Não sustentando teto ou abóboda

Erguido apenas ao Sol e à Lua

Coberto de manto azul durante o dia

Ou céu estrelado pela noite…

 

(Exceto quando chove ou está Encoberto

Que nestas pequenas cousas reside

A nossa condição de humanos.

E, nas pequenas coisas do dia-a-dia

Também há muita Poesia!)

 

… Nesta Cidade, dizia…

Ficamos contemplando o Templo

Desenhado sobre fundo branco

E Céu azul.

Esquecido o tempo.

Nesta Cidade sem Tempo!

 

 

 

Escrito em 1987.

Publicado em “Poiesis” – Volume VIII, Editorial Minerva, Dez. 2002.

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Introito

Após a divulgação de cinco poesias relativas ao Alentejo, “viagens no tempo e no espaço” sobre este tema que nos é tão querido, voltamos a divulgar, conforme delineado, um texto em prosa de ficção, uma viagem no Tempo sobre História…

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Todos os dias fazia viagens. Casa trabalho, trabalho casa. Pequenas viagens e apenas simples viagens.

Mas, naquele dia, VIAJOU real(mente). Uma verdadeira VIAGEM.

Num tempomóvel viajou. Uma viagem no Tempo.

Entrou num aparelhómetro semelhante a uma cabine telefónica das antigas. A porta fechou-se automaticamente. Carregou numa manivela… Sentiu-se estremecer por todo o corpo.

Um turbilhão de névoas em espiral… Todo o aparelho abanava, como se estivesse em convulsões.

Parou.

De repente achou-se num espaço e tempo desconhecidos.

 

Era um pátio enorme, cheio de água. Azul, muito azul. No meio, um estrado. Sobre ele uma mulher…

Vestido cor-de-rosa, um grande decote, por onde escorria um líquido. Azul, muito azul.

Entre mãos segurava uma cabeça, cabelo empoado, salpicado de azul.

Reconheceu-a.

Era Maria Antonieta, segurando a própria cabeça, há pouco decapitada.

Só então compreendeu que a água, o líquido azul, era o seu sangue. Azul, muito azul.

Falava. Perguntava.

- “ O meu menino?! O meu menino?!”

- “O menino está bem. Ainda há pouco dormia.” Responderam-lhe, em coro, milhões de mães, angustiadas com os seus próprios filhos.

Tranquilizou-se.

E pondo a cabeça entre um dos braços, apontou. Apontou para cima.

 

Maria Antonieta - Rainha de França - wikipédia

Num céu também azul, muito azul, estava um Sol. Um Sol – deus um Deus – sol. Muito gordo, cada vez mais gordo, uma grande cabeleira empoada, estava. Brilhando, brilhando cada vez mais, resplandecente de ouro, estava Luís XIV, o Rei. O Rei – Sol.

Todo ele era ouro. Barras de ouro, moedas de ouro. Luíses de ouro.

Luís XIV - Rei Sol - Rei de França - wikipédia

Ficou farto. Farto de tanto ouro, de tanto azul. Ouro e azul…

E mergulhou.

Marat - wikipédia

Mergulhou e achou-se numa banheira com Marat, todo ensanguentado.

Mas esse sangue era vermelho. Vermelho de sangue. Sangue de vermelho.

Experimentava, fazia experiências. Consultava manuscritos, equações e fórmulas.

 

Reconheceu a letra. De alguém que andara… há muito!... consigo, no Liceu.

Lavoisier, cientista francês - wikipédia.

Era de Lavoisier.

 

E Marat perguntou qual era a fórmula da água. Esquecera-se. E queria transformar todo aquele sangue em água. Estava farto de tanto sangue.

“H2O”, responderam-lhe milhões e milhões de vozes, de todos os injustiçados que morrem inútil e futilmente, como resultado de todas as atrocidades que os homens cúpidos de ganância e poder cometem contra os próprios irmãos de sangue.

 

E o narrador desta história mergulhou de novo na banheira ou piscina, não sabia… Também estava farto de sangue. Azul e agora vermelho.

E chegou ao fundo. Viu o fundo. E espantou-se!

 

Não era esmaltado, nem branco, nem azul. Não era vulgar, de uma banheira ou piscina normais.

O fundo era humano. Era um homem estendido, formando os contornos de uma banheira ou piscina. Enorme, gigante, espraiando-se por toda a França. Crescendo. Crescendo sempre.

Então compreendeu tudo. As ideias aclararam-se. Fez-se Luz. Mas a paisagem escureceu. Escureceu muito, fazendo-se negra, preta, preta de carvão.

Encheu-se de Terror!

Robespierre - wikipédia

Era Robespierre. Robespierre era o fudo de tudo aquilo.

Guinou. Num golpe de rins, infletiu para cima. Deixou o preto, o vermelho, o azul. Tudo sangue.

Veio à superfície.

 

E de novo foi banhado por todo aquele sol dourado. Daquele gordo, farto de ouro. Que nu, se banhava num cofre cheio de luíses. Luíses de ouro.

 

Notou que o umbigo crescia. Pouco a pouco delineavam-se contornos, formas. Uma forma única, homogénea, humana.

 

Nascia um homem do umbigo do rei. Um homem pequeno. Fardado, calças justinhas ao corpo. (Mas não era freak, não!) Trazia um braço metido no casaco… ou na braguilha, não se apercebeu bem.

 

Ah! Napoleão…

 Bonaparte, nascia do umbigo do Rei – Sol!

Napoleão Bonaparte, imperador francês. wikipédia

 

O Tempomóvel parou. Acabara-se a viagem. Uma luzinha vermelha indicava falta de tempolina, o combustível das viagens no Tempo.

E, subitamente, o narrador regressou ao Real(mente) Presente. Que atualmente também já é Passado.

*******

Viajava, na altura, num comboio de Elvas para Lisboa, quando “escrevi” esta história sobre a História de França e quiçá da Humanidade.

 *******       *******

De Luíses, julgando-se Donos do Sol e de Tudo e de Todos, está o Mundo cheio.

De Robespierres potenciais e factuais está a Humanidade farta, mas eles continuam atuando por aí, agindo de forma cruel e desumana, matando indiscriminadamente, cada vez mais selvaticamente!

E Bonapartes ávidos de Fama, Glória e Poder, cada Potência tem o seu de maior ou menor envergadura! Grave e perigoso se torna quando pretendem extrapolar essas ambições a outros povos, nações, reinos e países… O século XX teve-os bem catastróficos, em maior ou menor escala, conforme os países ou nações que tutelaram!

 

Quanto à viagem inspiradora essa sim é irrepetível, pois cada momento é sempre único “ não é possível um Homem banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio”, citando o filósofo.

E contextualizando a narrativa num plano mais realista e prosaico, há que referir que já não se podem sequer realizar essas simples viagens, tão propícias à evasão, ao devaneio, à reflexão, como eram as viagens de comboio…

Pois, muito prosaicamente, já não circulam comboios de passageiros na Linha de Leste, espaço e tempo em que, em viagem, em movimento, esta história foi surgindo.

Só mesmo viajando no tempo e vogando na imaginação.

 

 

Notas Finais:

Esta história, inspirada na História de França, foi escrita nos inícios da década de 80, julgo que em 1982.

Foi publicada no JL – Jornal de Letras, Nº 212, Ano VI, 28/07/1986, na rubrica “A Prova dos Novos”, sob pseudónimo: “Zé Manel (Mata)”.

O enquadramento da história foi adaptado, nas explicações iniciais e finais. Na versão inicial era ligeiramente diferente. Também o papel e ação do narrador foram modificados.

 

Quando já tenho o tema tratado e organizado para publicação, 4ª feira, 07/Jan., por trágica ironia, tenho conhecimento da ocorrência, na capital francesa, dos bárbaros e desumanos atentados, amplamente noticiados. A barbárie, a crueldade, a insanidade, a insensatez humanas, continuam desenfreadas…assassinando inocentes. Quase todos os dias, pelos mais diversos locais da Terra, a sanha assassina abate-se sobre homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, adultos, indiscriminadamente, civis que nada têm a ver com as guerras que se eternizam pelos mais diversos locais da Terra!

É a 2ª vez que, quando preparo um post para o blog, em que um país é de algum modo mencionado, acontecem situações problemáticas nesse País. Já sucedera relativamente a Timor!

 

De qualquer modo divulgo esta história como tinha projetado, isto é, após a publicação da poesia “Alentejo”, também de 1982 e dos quatro poemas escritos em 1988, sobre quatro dos cinco sentidos, reportando-me a idêntica temática “Alentejo”: “Cores…, Sons…, Cheiros…, Mãos…”. Um 5º tema, versando  “Sabores..”, nunca chegou a ser escrito…

 

Continuo dando seguimento ao projeto idealizado: ir divulgando a poesia já publicada, modalidade sobre que me tenho debruçado mais, intervalando com textos em prosa de ficção também já publicados.

Seguidamente tentarei criar um texto novo sobre uma temática atual…

Aguarde para ler!

 

Uma NOTA FINAL:

No concernente às fotos, e dado o tema versado, foram todas retiradas da net: wikipédia, enciclopédia livre.

As imagens são apenas uma sugestão para os subtemas. O ideal era ter imagens originais diretamente relacionadas…

 

CHEIROS que o Tempo guarda

"Em Maio, nos perfumados giestais." Foto de D.A.P.L. - Fonte do Salto - Aldeia da Mata - 2014.

CHEIROS que o Tempo guarda

 

Olor dum corpo a sair do banho

O aroma altivo dum poema

De linho, nas arcas de antanho

Os bragais exalando alfazema.

 

Cheiro terra pela charrua rasgada

Bebendo ansiosa as chuvas outonais

Qual amante procurando amada

Em Maio, nos perfumados giestais.

 

Do alecrim ao poejo e rosmaninho

Das mil flores bordejando no caminho

O odor vivo da folha do loureiro.

 

Os vapores da chanfana de carneiro

Um bom almoço e, após, a sesta

Qual Primavera, esta terra é uma festa!

 

Escrito em 1988.

Publicado no Jornal “Notícias de Arronches”, Nº 19 –Fev. 1990, pp. 14.

 

 

"Qual Primavera, esta terra é uma festa!" - Soajos floridos - Campos de Aldeia da Mata  - 2014 - FOTO de D.A.P.L.

 

Alentejo é Tempo é Espaço

Sentimento Alentejano

  

Alentejo é tempo é espaço

É nó apertado, é laço

Do qual nunca me desfaço.

 

É geografia, é história

É presente e passado em memória

É futuro, é luz de vitória.

 

É matemática, é natureza

É um ideal de beleza

De tão simples singeleza.

 

Guardado no pensamento

É sensação, é sentimento

É perceção em movimento.

 

É cheiro, sabor e perfume

É sol quente, que nem lume

É visão inebriante

No horizonte distante.

 

É luz do sol e calor

Em paisagem multicor

Consoante a estação.

Mas sempre no coração!

 

Grilos pintam a noite de sinais

Relas, ralos, briga de pardais

O cantar mavioso do rouxinol

À tarde, no final, ao pôr-do-sol.

 

Almejo sinfonia dos beirais

E outras sonoridades que tais

O murmúrio ondulante dos trigais

E outras lembranças iguais.

 

Perto ou longe, pouco importa

Que está sempre aberta a porta

Que ao âmago nos transporta

Ao profundo Ser, à calma

Da Alentejana Alma!

 

 

 Nota:

Uma versão desta poesia foi publicada na V Antologia Poética de "Mensageiro da Poesia", 2006

Boletim Cultural de "Mensageiro de Poesia" nº 126 - Jan. / Fev. 2015..

 

As Árvores Morrem de Pé?!

Porque se abatem as árvores, à beira das estradas?

Perguntou, inocente (ou atrevida?) a criança.

 

Porque impedem o alargamento das estradas.

Respondeu, categórico, o Presidente da Junta.

Porque os automobilistas nelas esbarram, esmagando os seus automóveis e as suas carolas nos troncos obtusos das árvores, que estacionam nos dois sentidos, não respeitando as regras de trânsito.

Sentenciou, sabedor, o Autarca Diligente.

 

Então… e a sombra? E o oxigénio?

 

E para que serve a sombra à beira das estradas?

Já ninguém anda a pé nem de carroça.

E temos toldos e guarda-sóis. Que há muitos no Hipermercado.

 

E o oxigénio compra-se em garrafas, não tarda muito.

 

E temos o ar condicionado!

 

Para que queremos árvores e natureza, se no meu Supermercado temos de tudo e é a verdadeira natureza?!

Para que precisamos de árvores, se temos tantas de plástico, perenes, sem folhas caindo, à venda no Hiper?!

Se temos tantas árvores empalhadas prontas a serem compradas para o Natal?!

Atalhou, solícito, o Dono de Uma Cadeia de Supermercados.

 

E as chatices que nos dão as árvores…

São as folhas que caem no Outono e voam por todo o lado.

E os ramos que têm que ser podados no Inverno…

E na Primavera enchem-se de flores e causam-nos alergias. Para depois murcharem e caírem…

E têm que ser regadas no Verão. E os frutos têm que ser colhidos, Quando há tantos na frutaria, À mão de semear…!

E trazem-nos mosquitos. E os pássaros. E os seus dejetos!

Acrescentou, pragmático, o Senhor Senso Comum.

 

E quando eu fizer anos, em Dezembro, e chegarem as cegonhas?

Que vão elas dizer das suas casas devassadas?!

Atreveu-se, ainda, a perguntar, impertinente, a criança.

 

O tempo das cegonhas já passou. Ou ainda acreditas nas cegonhas?

Pouco importa quando chegam. Nem como! Nem onde!

O tempo agora é digital. Mede-se nos écrans gigantes plantados nas bermas das vias rápidas, nos painéis publicitários anunciando o Novo Detergente. (Em vez das árvores que distraem os homens com os seus ramos a baloiçarem ao vento.)

Não há tempo, nem tempos, cronológico ou meteorológico que nos interessem. Não há Fim dos Tempos, que o Tempo é Eterno e Efémero.

Rematou, convincente, o Político Instalado no Poder.

 

E, a criança,

Perante tamanhas Sabedorias, calou-se.

Mas doeu-lhe muito ver tantos troncos de árvores

Cortados às rodelas, nas bermas das estradas!

 

E… Quando chegarem as cegonhas?

Que vão elas dizer…?!

Estas perguntas ficaram ecoando, em ressonância,

Na mente da criança.

Notas:

Escrito em Portalegre, Set. 2000.

Publicado no Boletim Cultural Nº 58, do Círculo Nacional D’Arte e Poesia, Dez. 2000

Um conto...

 

Sete Quadras Soltas

  Banco de jardim 

Aqui pasmado neste jardim

À espera que chegue Amigo

Que bem sentado em mim

Possa prosear comigo.

  

Correm dias… 

Correm dias, fogem anos

São ondas desfeitas no mar

São ilusões desenganos

São lágrimas no teu olhar.

  

Fado e solidão 

De mão na mão, de braço dado

Segue o Fado na desventura

Com ternura lado a lado

Vai solidão numa aventura.

  

Mar Português 

Desbravaram meu corpo caravelas

Em tempos idos na Lusa memória

Sou calmaria, tempestade, procelas

De povo à beira mar sou História!

 

 Pão e Paz

Pão, em casa, é harmonia

Do Amor mantendo a chama

Trinado – breve, melodia

Da Paz que o Homem reclama.

  

Paz 

De Paz e Amor foi o tema

De muitas e lindas canções

Que Amor e Paz seja o lema

Que norteie os corações.

 

Sete Rios… 

Sete rios, sete fontes

Sete bicas a correr

Sete linhas, sete pontes

Sete vias p’ra te ver.

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