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Aquém Tejo

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Há quem do Tejo só veja o além porque é distância. Mas quem de Além Tejo almeja um sabor, uma fragrância, estando aquém ou além verseja, do Alentejo a substância.

Alagoa - Algarve – Altura – Exposição – Mercado

Mercado Requalificado

Exposição

“O que o Mar cria e o Homem recria”

“Barco Lendas e Rendas”

 

Uma das temáticas que percorre este blogue é a divulgação de acontecimentos culturais, relevando os de caráter regional, que passam muitas vezes injustamente despercebidos.

 

Mercado Altura Foto original DAPL 2016.jpg

 

Ocorreu na passada 3ª feira, dia 26 de Julho, em Altura – Alagoa, Algarve a “inauguração” do Mercado da localidade, melhor, inauguração da respetiva "requalificação". Espaço muito agradável e acolhedor, cheio de luz, aonde já fora fazer compras: pão, fruta, artesanato. Também se pode aí adquirir bom peixe, como é habitual apanágio dos mercados tradicionais.

 

A ocorrência da apresentação da mencionada exposição “O que o Mar cria e o Homem recria”, de Ana Paula Frade, estruturada a partir de conchas e carcaças de crustáceos e outros “frutos” do Mar, levou-nos propositadamente a nova visita.

Conchas Exposição Altura 2016. Foto original DAPL jpg

 

Emoldurados, estes elementos marinhos, abundantes nas belas praias do concelho de Castro Marim, constituem imaginativos quadros artísticos, que muito embelezam e valorizam o espaço comercial. Será de todo conveniente que outras exposições possam aí acontecer, bem como algumas das obras expostas possam constituir um futuro acervo expositivo permanente.

(Permito-me dois comentários – questões.

Não seria mais correto o título “… e a Mulher recria”?

E uma pequena “etiqueta” / subtítulo, para cada um dos quadros, não valorizaria cada um dos trabalhos apresentados?)

 

Barco Lendas e Rendas Foto original DAPL 2016.jpg

 

Também exposto, um barco tradicional muito bem decorado por trabalhos em crochet - “Barco Lendas e Rendas”, sonhos e poemas, resultantes do trabalho de um grupo de intervenção social “ACASO – Associação Cultural e de Apoio Social de Olhão”.

 

Embelezando e valorizando este texto, várias fotos originais de D. A. P. L. documentam os trabalhos expostos.

 

No final da inauguração e abertura da exposição, uma apetitosa caldeirada foi oferecida aos visitantes. E, entre várias outras bebidas, uma fresquíssima e agradabilíssima sangria.

 

Caldeirada Altura 2016 Foto original DAPL. jpg

 

Relativamente à caldeirada, algo que me surpreendeu agradavelmente na sua composição, pois nunca tal ainda constatara. Além do habitual peixe, também havia nacos de carne de porco: chouriço e presunto.

Não esqueçamos que Castro Marim é um concelho simultaneamente com costa marítima, litoral de excelentes praias, frente de rio e uma parte fundamental de terra interior, de tradições campesinas.

Daí talvez esta composição híbrida de Mar e Terra, que resulta muito bem!

 

Constatei que, entre o público assistente/participante, pouca gente figuraria dessa massa enorme de população que, nestes escassos meses de verão, “invade” as praias algarvias. Atrever-me-ia a dizer que nós seríamos os poucos ou mesmo os únicos “representantes”, que acedemos ao convite expresso e divulgado em variados locais públicos da povoação.

Para além do agradecimento e dos parabéns às entidades organizativas, reforço que as exposições e o mercado, devidamente requalificado, aguardam e merecem uma visita!

 

Deixo também uma sugestão / questão sobre que já tenho falado com outras pessoas que trabalham em mercados de outras localidades.

Relativamente ao horário, mantendo o habitual  e tradicional da manhã, comum a todos os mercados que conheço, não seria de se pensar também noutros horários flexíveis?

 

Por ex., neste caso e na época de veraneio, experimentar uma abertura também ao final da tarde, para direcionar aos “consumidores” provenientes da praia. Isto digo eu!

 

Noutras localidades, suburbanas, abrir também ao final da tarde, na hora de regresso dos trabalhos diários, julgo que também seria de experimentar.

 

E noutras, em que o mercado apenas abre alguns dias, penso que a abertura diária ajudaria a fidelizar clientes.

 

Isto sobre os horários… Porque haverão outras situações que podem ajudar a dar vida aos mercados tradicionais.

Bem sei que há imensas e enormes superfícies comercias, concorrendo e disputando os consumidores com outras condições muito mais vantajosas!

 

E onde esta conversa chegou!

Que isto de mercados tem muito que se lhe diga…

 

Balança tradicional Foto original DAPL 2016.jpg

 

E sobre os ditos, uma sugestiva imagem de uma balança tradicional, no referido "Mercado Requalificado", e também foto original de D.A.P.L.!

 

E toda esta azáfama ocorre em 2016.

Não esqueça que para o ano será 2017!

E o que é que isso tem de especial?!

(...)

Sobre Aldea da Mata

100px-CRT-aldeiamata.png. - in wikipédia.Imagem,:in Wikipédia.

 

Memórias Paroquiais de 1758

 

Seguidamente se apresentam as principais informações disponibilizadas sobre a Paróquia de “Aldea da Mata”, com base nas fontes referenciadas no “post” anterior e com as respostas dadas pelo Pároco: ”O Reytor Cura Jozeph Martins”, respondendo às perguntas formuladas no Inquérito.

      Nesta divulgação optei pela utilização da ortografia atual, contrariamente ao que apresentara na versão publicada no Jornal “A Mensagem”, em 2014, de modo a tornar a informação mais entendível, embora considere que não é difícil compreender o texto com a ortografia da época.

Sublinhei alguns termos a negrito para destacar a informação. (As respostas do Pároco estão entre "aspas".)

Só estão apresentadas as perguntas sobre as quais houve respostas.

 

Sobre “Aldea da Mata”

cópia do original de Mata jpgImagem in: www.publico.pt/.../torre-do-tombo-memorias-paroquiais

 

 

Em observância do que se me ordena”

 

  1.Em que província fica, que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?

R: “Aldeia da Mata fica na Província do Alentejo, comarca do Crato no termo da mesma vila, não pertence a outra freguesia.”

 

  1. Se é d'el-rei, ou de donatário, e quem o é ao presente?

R: “É do Sereníssimo Senhor Infante Dom Pedro como Grão Prior deste Priorado do Crato.”

 

  1. Quantos vizinhos tem e o número das pessoas?

R: “Tem trezentas pessoas de sacramento, e oitenta menores.”

 

  1. Se está situada em campina, vale, ou monte, e que povoações se descobrem dela, e quanto dista?

R: “Está situada em campina pequena.”

 

  1. Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, todos pelos seus nomes?

R: “A paróquia está fora da aldeia mas quase próxima a ela.”

 

  1. Qual é o orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que santos?

R: “São Martinho é o seu orago, tem mais três altares, da Conceição, Rosário, e Almas, e tem somente uma nave.”

 

  1. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?

R: “É reitor cura o qual apresenta o dito Sereníssimo Senhor Infante, tem de ordenado dois moios de trigo, vinte almudes de vinho, e em dinheiro dois mil reis.”

 

  1. Se tem ermidas, e de que santos, e se estão dentro, ou fora do lugar, e a quem pertencem?

R: “Tem duas ermidas, uma de Santo António outra de São Pedro muito pobres ficam quase fora da mesma aldeia e pertencem ao pároco da dita freguesia de São Martinho.”

 

  1. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?

R: “Recolhe centeio, algum trigo e milho.”

 

  1. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta?

R: “Tem juiz da vintena e é sujeita ao juiz de fora do Crato.”

 

  1. Se tem correio, e em que dias da semana chega e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra onde ele chega?

R: “Não tem correio serve-se do do Crato.”

 

  1. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do reino? Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras cousas dignas de memória?

R: “Dista uma légua do Crato, e vinte e sete de Lisboa.”

 

  1. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparado?
    R: “Não padeceu ruína alguma.”

 

Na parte do Questionário sobre a “serra”, foi respondido: “Não tem serra grande nem pequena.”

 

Sobre o “rio”: “Não tem rio grande nem pequeno, somente uma ribeira pequena que corre alguns meses no tempo do Inverno e neste mesmo tempo moem dois moinhos de moer pão que estão na mesma ribeira limite da mesma aldeia.”

 

Cascata da Azenha do Ti Luís Belo.jpg

 Foto de F.M.C.L

 

 

 

Memórias Paroquiais

Memórias Paroquiais de 1758

(As freguesias do atual concelho de Crato)

mapa  concelho crato.gif

Em 1758, no reinado de D. José I, três anos após o “Terramoto de 1755”, através de um aviso de 18 de Janeiro do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, foram enviados interrogatórios para todos os Párocos do Reino, inquirindo-os sobre as respetivas paróquias e povoações.

Retrato_do_Marquês_de_Pombal.JPG

Nesses inquéritos eram formuladas questões incidindo sobre três temas:

A terra, isto é, a localidade propriamente dita, nomeadamente sobre a sua geografia, dados eclesiásticos e religiosos, demográficos, históricos, económicos, administrativos e jurisdicionais, entre outros. Também se questionava sobre os danos provocados pelo “Terramoto”. Um total de 27 perguntas.

A serra, incluindo 13 questões sobre alguma serra existente na paróquia, seus cursos de água, minas, plantas, caça, povoações, etc.

E os rios, com 20 perguntas sobre a sua designação, volume de águas, navegabilidade, pescarias, cultivos nas margens, eventual ouro de aluvião, pontes, existência de moinhos ou lagares de azeite, etc.

Havia ainda uma pergunta, funcionando como recomendação final: «E qualquer coisa notável que não vá neste interrogatório.»

Após respondidos, deveriam as respetivas respostas ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

A organização das respostas aos inquéritos coube ao Padre Luís Cardoso (1694 – 1769), que já anteriormente organizara um “Dicionário Geográfico de Portugal”, a partir de inquérito realizado em 1732. As designadas “Memórias Paroquiais” de 1758 só seriam concluídas em 1832.

As perguntas foram iguais para todos os párocos, mas as respostas variaram bastante, em função das características específicas de cada povoação, mas provavelmente também do eclesiástico respondente, conforme se pode verificar nas Memórias das Paróquias do “termo” da “villa” do Crato.

Na “Torre do Tombo” estão depositados 44 volumes manuscritos de “Memórias Paroquiais”, disponíveis online.

A Universidade Nova de Lisboa, em colaboração com o Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo também disponibiliza informação tratada sobre o assunto.

A Universidade de Évora, através do CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora e da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia, disponibiliza informação digitalizada sobre várias paróquias do Alentejo, nomeadamente do concelho de Crato.

Foi a partir destes dados que foi coligida a informação referente às paróquias do termo da vila do Crato.

Na “net” também estão disponíveis diversos trabalhos específicos sobre o assunto, de múltiplas localidades e concelhos, praticamente de todo o País.

Há também muita bibliografia disponível sobre esta temática, referente aos mais diversos concelhos do País. Diversas Câmaras Municipais e variadas Instituições culturais têm apoiado a publicação, em suporte de livro ou revista, dos documentos respeitantes às respetivas Paróquias, que na sua essência estruturam o cerne das atuais freguesias, apesar das muitas modificações existentes ao longo destes dois séculos e meio, disponibilizando, deste modo, informação sobre o respetivo passado.

Nos textos que iremos apresentado nos “posts” pretende-se fundamentalmente divulgar informação sobre o passado das paróquias do Concelho, que a memória do que foi vivido, ainda que remotamente, estrutura o presente e condiciona o futuro.

Porque, apesar das muitas mudanças e alterações no mundo atual, e precisamente por elas existirem e fazerem parte integrante do nosso padrão de vida, é importante valorizarmos o legado material e imaterial que nos foi deixado e faz parte da nossa identidade e cidadania. Aproveitando, nomeadamente, este moderno recurso, a internet, que tão democrática e enriquecedoramente nos permite, por um lado, o acesso à informação e ao conhecimento e, por outro, nos proporciona a subsequente divulgação.

Que ao ‘Acender-se uma Luz…’! Usufruindo do direito inalienável da “Liberdade de Expressão”.

Poder-se-á dizer que estes textos memoriais têm lacunas e limitações. Certamente terão e estudiosos avalizados sobre o tema enumerá-las-ão…

Têm também virtualidades. Na minha perspetiva, nomeadamente a utilização da metodologia de inquérito, em que questões estruturadas e comuns foram colocadas a todos os Párocos do Reino, permitindo a recolha relativamente simultânea de respostas de diferentes pessoas, de variadas localidades sobre os mesmos problemas, obtendo informações que, com todas as relatividades inerentes, permitem tirar conclusões sobre aspetos comuns a todo o território.

Frisando, como disse, limitações que existem.

Por ex., pode ficar-se a conhecer e comparar os efeitos do “Terramoto”, pelas diferentes regiões do País. Lendo as Memórias Paroquiais de Almada e do Crato notam-se grandes diferenças sobre os efeitos que este fenómeno geológico teve em cada um dos “termos”.

1755_Lisbon_earthquake.jpg

Também se pode analisar comparativa e regionalmente sobre as produções agrícolas dominantes. E também concluir que, genericamente, assentavam à época ainda na trilogia fundamental desde a época romana: cereal, vinho e azeite, para além da criação de gado. Existiam, contudo, especificidades e preponderâncias regionais de uns ou outros produtos.

centeio.jpguva.jpgazeitona.jpg

Notas Finais:

  • Através deste “post”, voltamos à temática histórica.
  • Uma versão deste texto foi publicada no Jornal “A Mensagem”, em 2014.

 

Imagens:

- mapa do concelho do Crato, in “aquém-tejo.blogsapo.pt/ …”

- Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 – 1782), Escola Portuguesa, Museu Francisco Tavares Proença Júnior, Castelo Branco, in Wikipédia.

- “Gravura em cobre, mostrando Lisboa em chamas e o tsunami varrendo o porto”, in wikipédia.

- imagens de “centeio, uva e azeitona”, in wikipédia.

 

 

 

 

COSMOS – Odisseia no Espaço 2014

Cosmos  Odisseia no Espaço 2014

Também no Canal 2 (RTP2) passa uma série imperdível, embora num horário demasiado tardio: 23h 30’, de 3ª a 5ª feira!

Mas a série não é excepcional. É excepcionalíssima.

Refiro-me a “COSMOS – Odisseia no Espaço.”

É uma 2ª edição desta série científica, cuja 1ª edição ocorrera na década de oitenta e fora realizada e conduzida por Carl Sagan, coadjuvado pela sua mulher, Ann Druyan.

Carl Sagan e nave Viking

Já nessa edição ficara encantado com a temática abordada e a apresentação pelo cientista de assuntos à partida complexos, mas que ele nos revelava de forma tão simples e extraordinariamente apelativa.

Na altura, década de 80, também li o livro “COSMOS”, em edição da Gradiva / Bolso.

Livro Cosmos de Carl Sagan

Esta 2ª edição da série não fica nada atrás da primeira. É também magistralmente conduzida, agora pelo astro físico norte-americano Neil deGrasse Tyson.

Também numa forma simples e extraordinariamente cativante dá-nos a conhecer ou chama-nos a atenção para problemas ou situações científicas ou não que, à partida, poderiam ser complexas, ainda que parcialmente possamos ter algum conhecimento sobre elas, mas que nos prendem ao écran, de modo a ficarmos a conhecer ou reconhecer o Mundo em que vivemos e a sabermos mais sobre ele e compreendermos melhor a realidade que nos rodeia.

Sim, porque a Ciência e os problemas científicos fazem parte do nosso dia-a-dia!

 

 

E é essa a magistral lição destes programas, mostrar-nos o modo como a Ciência, os cientistas e as suas decisões e principalmente de quem financia a Ciência, determinam o funcionamento das nossas sociedades!

 

Não posso esquecer o destaque que deu, num dos episódios da semana passada, aos problemas energéticos. Como não faz sentido que a Humanidade continue a utilizar os combustíveis fósseis como fontes de energia, quando o Sol todos os dias ilumina, aquece e põe em funcionamento a Vida na Terra, libertando energia limpa que o Homem não aproveita e que era suficiente para desenvolver todas as atividades em que dela precisamos. E o realce à destruição do homem sobre o seu próprio habitat, com a crescente e incontrolável produção de dióxido de carbono, que num futuro poderá levar à sua própria auto - destruição.

 

E como as ideias e descobertas dos cientistas nem sempre são compreendidas e aceites à primeira… Às vezes nem no próprio meio científico.

Ocasionalmente, as rivalidades absurdas entre alguns cientistas!

E como os interesses económicos, o imediatismo na obtenção de proveitos financeiros e a cupidez humana condicionam e limitam o progresso da Ciência e da Vida Humana.

E… E….

Pois! É uma série a não perder!

Guerra no koweit. 1991

Mas devia ser apresentada num horário menos tardio, talvez até noutros dias da semana, de modo a que fosse acessível, nomeadamente a jovens e estudantes, de qualquer Área, pois as temáticas embora importantes para todas as pessoas, são de especial realce para quem estuda.

 

 

Fontes de recolha das imagens:

natgeotv.com/pt/cosmos - national geographic channel

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cosmos

http://www.gradiva.pt/

Wikipédia, a enciclopédia livre

 

 

 

 

Numa Cidade sem Tempo...

 

Numa Cidade sem Tempo

                         Com(Templo)!

 

Contemplo o branco!

Sempre a brancura das paredes a povoar-nos a Memória.

Ressequida a paisagem: tons castanho, creme, ocres, amarelos

De quando em vez, uns verdes (lapsos de pintor)

Vermelhos (lembranças de lutas, de conquistas, violências).

Transversais barras riscam o branco da monocromia:

- Margens dum espaço de rodapé colorido.

 

E o horizonte… a perder de vista!

Sem limite, a terra nos marca o Destino

Nos espraia sem (ha)ver praia.

É ponto de partida e de chegada.

 

Por aqui ficaram muitos Povos

Perderam-se nas searas, na terra fértil.

E sendo perecíveis as sementes, morrendo e nascendo cada ano…

Quiseram intemporizar-se nas paredes, nas pedras que ergueram.

Cantaram hinos em mármores e granitos!

Que o Pão nos sustenta, mas todos-os-dias

Se come, se dorme e… se morre um pouco.

Levantaram-se colunas, menhires erguidos proclamaram

Louvores à Fertilidade, à Deusa – Terra (Mãe – Fecunda)!

E ao Homem, agente transformador (Fecundante!)

E Templos e Igrejas, aos Deuses

Sublimação dos homens, cristalização dos Ideais. Apenas!

Que os Deuses nunca existiram, Além da Imaginação

                                                                            Dos Homens.

 

Nem sem ela, o Céu e o Olimpo.

 

Ficaram as folhas de acanto, petrificadas, nos capitéis coríntios.

 

Em linguagem marmorificada, dizem-nos: 

“ – Antes de os homens existirem à face da Terra

Mesmo antes de a terra o ser

Já nós éramos.

Éramos muito antes do Antes.

Somos muito antes mesmo de serem o que são, as folhas que somos.

Muito antes das Plantas.

Existimos muito antes de nos chamarem o que nos chamam.

 

Só muito Depois vieram os homens.

E vieram muitos e depois muitos mais por nós passaram, até que nos chamassem.

Pedras nos chamaram, calhaus, pedregulhos, pedra rija e outros nomes…

Que esquecemos.

Até que nos dignificaram, chamando-nos mármores.

E Sempre por nós passaram, por muitos e muitos Tempos, os Elementos em nós

Permanecendo imutáveis. Intemporais.

Até que há pouquíssimo tempo passaram uns Homens, de certeza dados à Poesia

Que em nós viram plantas, flores ou somente eles próprios, ou partes suas

Ou as suas partes sublimadas.

E, sendo eles mortais, temporais como as plantas

Quiseram simplesmente eternizar-se, eternizando-se, transformando-se-nos.

 

E, eis-nos contemplando a Cidade dos Homens, deste alto, infinitamente intemporais

Marcando num curto espaço das nossas vidas, como Pedras, a precaridade da vida dos homens

De número tão infinitos, mas tão finitos de Tempo.

 

E os homens, mesmo os que Homens foram, continuaram passando.

 

Chegados e partidos!

 

E nós aqui estamos em capitéis coríntios, sobre colunas graníticas

Formando o Templo.

Sustentando o Céu, que sobre nós se ergue!”

 

E, nesta cidade crescida das lavouras

Do rasgar do ventre criador pelos arados

Dos campos ondulantes de trigais

(Ilusão de mares balouçados pelos ventos)

Lembra-me outra cidade… minguada de terras

Sem arados nem trigais, mas com excesso de águas

Navegando na laguna, transbordando por ciclos.

Afundando-se no berço em que nasceu e prosperou.

 

(Nos Lóios, em painéis de azulejos

Essa arte sublime de portugueses

Corre a vida de Lourenço

Patriarca – santo de Veneza.)

 

Contraste com esta cidade que contemplo

Sempre minguada de águas e terras a perder de vista.

 

Em ambas, a marca do tempo nos lembra

A precaridade da Existência.

 

Se uma se afunda lentamente

O mar fazendo ondas no chão da Catedral

A corrosão do ar salgado leprosando os calcários…

Nesta, não falarei de monumentos construídos, destruídos, reconstruídos…

Lembrarei somente esse macabro achado:

Revestida de ossos, a Capela assim chamada

Nos situa no presente – futuro que recalcamos.

 

E que dizer das praças?!

Nas mais belas praças, lugar de Homens

O sol num céu azul

A luz ferindo a vista

Reflete-se do branco das paredes…

No centro, gotejando, a água das fontes

Corre pura e cristalina.

 

Se na do Geraldo a fonte, de perfeita

“Bien merece ser coronada”.

Na de Moura, um globo, o Mundo

Distribui com parcimónia a água

Pelos quatro pontos cardeais.

 

E por que corrermos mais

Se nesta cidade se resume

A nossa condição maior de Portugueses

O nosso orgulho de Humanidade?

 

Nesta cidade com Templo

De colunas e capitéis coríntios

Não sustentando teto ou abóboda

Erguido apenas ao Sol e à Lua

Coberto de manto azul durante o dia

Ou céu estrelado pela noite…

 

(Exceto quando chove ou está Encoberto

Que nestas pequenas cousas reside

A nossa condição de humanos.

E, nas pequenas coisas do dia-a-dia

Também há muita Poesia!)

 

… Nesta Cidade, dizia…

Ficamos contemplando o Templo

Desenhado sobre fundo branco

E Céu azul.

Esquecido o tempo.

Nesta Cidade sem Tempo!

 

 

 

Escrito em 1987.

Publicado em “Poiesis” – Volume VIII, Editorial Minerva, Dez. 2002.

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Introito

Após a divulgação de cinco poesias relativas ao Alentejo, “viagens no tempo e no espaço” sobre este tema que nos é tão querido, voltamos a divulgar, conforme delineado, um texto em prosa de ficção, uma viagem no Tempo sobre História…

 

VIAGENS… surreais. No Tempo.

Todos os dias fazia viagens. Casa trabalho, trabalho casa. Pequenas viagens e apenas simples viagens.

Mas, naquele dia, VIAJOU real(mente). Uma verdadeira VIAGEM.

Num tempomóvel viajou. Uma viagem no Tempo.

Entrou num aparelhómetro semelhante a uma cabine telefónica das antigas. A porta fechou-se automaticamente. Carregou numa manivela… Sentiu-se estremecer por todo o corpo.

Um turbilhão de névoas em espiral… Todo o aparelho abanava, como se estivesse em convulsões.

Parou.

De repente achou-se num espaço e tempo desconhecidos.

 

Era um pátio enorme, cheio de água. Azul, muito azul. No meio, um estrado. Sobre ele uma mulher…

Vestido cor-de-rosa, um grande decote, por onde escorria um líquido. Azul, muito azul.

Entre mãos segurava uma cabeça, cabelo empoado, salpicado de azul.

Reconheceu-a.

Era Maria Antonieta, segurando a própria cabeça, há pouco decapitada.

Só então compreendeu que a água, o líquido azul, era o seu sangue. Azul, muito azul.

Falava. Perguntava.

- “ O meu menino?! O meu menino?!”

- “O menino está bem. Ainda há pouco dormia.” Responderam-lhe, em coro, milhões de mães, angustiadas com os seus próprios filhos.

Tranquilizou-se.

E pondo a cabeça entre um dos braços, apontou. Apontou para cima.

 

Maria Antonieta - Rainha de França - wikipédia

Num céu também azul, muito azul, estava um Sol. Um Sol – deus um Deus – sol. Muito gordo, cada vez mais gordo, uma grande cabeleira empoada, estava. Brilhando, brilhando cada vez mais, resplandecente de ouro, estava Luís XIV, o Rei. O Rei – Sol.

Todo ele era ouro. Barras de ouro, moedas de ouro. Luíses de ouro.

Luís XIV - Rei Sol - Rei de França - wikipédia

Ficou farto. Farto de tanto ouro, de tanto azul. Ouro e azul…

E mergulhou.

Marat - wikipédia

Mergulhou e achou-se numa banheira com Marat, todo ensanguentado.

Mas esse sangue era vermelho. Vermelho de sangue. Sangue de vermelho.

Experimentava, fazia experiências. Consultava manuscritos, equações e fórmulas.

 

Reconheceu a letra. De alguém que andara… há muito!... consigo, no Liceu.

Lavoisier, cientista francês - wikipédia.

Era de Lavoisier.

 

E Marat perguntou qual era a fórmula da água. Esquecera-se. E queria transformar todo aquele sangue em água. Estava farto de tanto sangue.

“H2O”, responderam-lhe milhões e milhões de vozes, de todos os injustiçados que morrem inútil e futilmente, como resultado de todas as atrocidades que os homens cúpidos de ganância e poder cometem contra os próprios irmãos de sangue.

 

E o narrador desta história mergulhou de novo na banheira ou piscina, não sabia… Também estava farto de sangue. Azul e agora vermelho.

E chegou ao fundo. Viu o fundo. E espantou-se!

 

Não era esmaltado, nem branco, nem azul. Não era vulgar, de uma banheira ou piscina normais.

O fundo era humano. Era um homem estendido, formando os contornos de uma banheira ou piscina. Enorme, gigante, espraiando-se por toda a França. Crescendo. Crescendo sempre.

Então compreendeu tudo. As ideias aclararam-se. Fez-se Luz. Mas a paisagem escureceu. Escureceu muito, fazendo-se negra, preta, preta de carvão.

Encheu-se de Terror!

Robespierre - wikipédia

Era Robespierre. Robespierre era o fudo de tudo aquilo.

Guinou. Num golpe de rins, infletiu para cima. Deixou o preto, o vermelho, o azul. Tudo sangue.

Veio à superfície.

 

E de novo foi banhado por todo aquele sol dourado. Daquele gordo, farto de ouro. Que nu, se banhava num cofre cheio de luíses. Luíses de ouro.

 

Notou que o umbigo crescia. Pouco a pouco delineavam-se contornos, formas. Uma forma única, homogénea, humana.

 

Nascia um homem do umbigo do rei. Um homem pequeno. Fardado, calças justinhas ao corpo. (Mas não era freak, não!) Trazia um braço metido no casaco… ou na braguilha, não se apercebeu bem.

 

Ah! Napoleão…

 Bonaparte, nascia do umbigo do Rei – Sol!

Napoleão Bonaparte, imperador francês. wikipédia

 

O Tempomóvel parou. Acabara-se a viagem. Uma luzinha vermelha indicava falta de tempolina, o combustível das viagens no Tempo.

E, subitamente, o narrador regressou ao Real(mente) Presente. Que atualmente também já é Passado.

*******

Viajava, na altura, num comboio de Elvas para Lisboa, quando “escrevi” esta história sobre a História de França e quiçá da Humanidade.

 *******       *******

De Luíses, julgando-se Donos do Sol e de Tudo e de Todos, está o Mundo cheio.

De Robespierres potenciais e factuais está a Humanidade farta, mas eles continuam atuando por aí, agindo de forma cruel e desumana, matando indiscriminadamente, cada vez mais selvaticamente!

E Bonapartes ávidos de Fama, Glória e Poder, cada Potência tem o seu de maior ou menor envergadura! Grave e perigoso se torna quando pretendem extrapolar essas ambições a outros povos, nações, reinos e países… O século XX teve-os bem catastróficos, em maior ou menor escala, conforme os países ou nações que tutelaram!

 

Quanto à viagem inspiradora essa sim é irrepetível, pois cada momento é sempre único “ não é possível um Homem banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio”, citando o filósofo.

E contextualizando a narrativa num plano mais realista e prosaico, há que referir que já não se podem sequer realizar essas simples viagens, tão propícias à evasão, ao devaneio, à reflexão, como eram as viagens de comboio…

Pois, muito prosaicamente, já não circulam comboios de passageiros na Linha de Leste, espaço e tempo em que, em viagem, em movimento, esta história foi surgindo.

Só mesmo viajando no tempo e vogando na imaginação.

 

 

Notas Finais:

Esta história, inspirada na História de França, foi escrita nos inícios da década de 80, julgo que em 1982.

Foi publicada no JL – Jornal de Letras, Nº 212, Ano VI, 28/07/1986, na rubrica “A Prova dos Novos”, sob pseudónimo: “Zé Manel (Mata)”.

O enquadramento da história foi adaptado, nas explicações iniciais e finais. Na versão inicial era ligeiramente diferente. Também o papel e ação do narrador foram modificados.

 

Quando já tenho o tema tratado e organizado para publicação, 4ª feira, 07/Jan., por trágica ironia, tenho conhecimento da ocorrência, na capital francesa, dos bárbaros e desumanos atentados, amplamente noticiados. A barbárie, a crueldade, a insanidade, a insensatez humanas, continuam desenfreadas…assassinando inocentes. Quase todos os dias, pelos mais diversos locais da Terra, a sanha assassina abate-se sobre homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, adultos, indiscriminadamente, civis que nada têm a ver com as guerras que se eternizam pelos mais diversos locais da Terra!

É a 2ª vez que, quando preparo um post para o blog, em que um país é de algum modo mencionado, acontecem situações problemáticas nesse País. Já sucedera relativamente a Timor!

 

De qualquer modo divulgo esta história como tinha projetado, isto é, após a publicação da poesia “Alentejo”, também de 1982 e dos quatro poemas escritos em 1988, sobre quatro dos cinco sentidos, reportando-me a idêntica temática “Alentejo”: “Cores…, Sons…, Cheiros…, Mãos…”. Um 5º tema, versando  “Sabores..”, nunca chegou a ser escrito…

 

Continuo dando seguimento ao projeto idealizado: ir divulgando a poesia já publicada, modalidade sobre que me tenho debruçado mais, intervalando com textos em prosa de ficção também já publicados.

Seguidamente tentarei criar um texto novo sobre uma temática atual…

Aguarde para ler!

 

Uma NOTA FINAL:

No concernente às fotos, e dado o tema versado, foram todas retiradas da net: wikipédia, enciclopédia livre.

As imagens são apenas uma sugestão para os subtemas. O ideal era ter imagens originais diretamente relacionadas…

 

CHEIROS que o Tempo guarda

"Em Maio, nos perfumados giestais." Foto de D.A.P.L. - Fonte do Salto - Aldeia da Mata - 2014.

CHEIROS que o Tempo guarda

 

Olor dum corpo a sair do banho

O aroma altivo dum poema

De linho, nas arcas de antanho

Os bragais exalando alfazema.

 

Cheiro terra pela charrua rasgada

Bebendo ansiosa as chuvas outonais

Qual amante procurando amada

Em Maio, nos perfumados giestais.

 

Do alecrim ao poejo e rosmaninho

Das mil flores bordejando no caminho

O odor vivo da folha do loureiro.

 

Os vapores da chanfana de carneiro

Um bom almoço e, após, a sesta

Qual Primavera, esta terra é uma festa!

 

Escrito em 1988.

Publicado no Jornal “Notícias de Arronches”, Nº 19 –Fev. 1990, pp. 14.

 

 

"Qual Primavera, esta terra é uma festa!" - Soajos floridos - Campos de Aldeia da Mata  - 2014 - FOTO de D.A.P.L.

 

NATAL: leitura de SALMOS

Arranjo de Natal. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 E, porque é Natal, apesar de ser Natal todos os dias, mas nem todos possam ter um Natal como merecido...

 

A leitura de SALMOS

 

Salmo 23

"O SENHOR é o meu pastor: nada me faltará... (...)

Digitalização Estrela Natal. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 

Salmo 27

" O SENHOR é a minha luz e a minha salvação...

" O SENHOR é a força da minha vida... (...)

 

Sol de Inverno. APBP, Artistas Pintores com a Boca e o Pé

 

Salmo 100 - Salmo de Louvor

 

"CELEBRAI com júbilo ao SENHOR, todos os moradores da terra...

Roda de Natal, APBP, Artistas Pintores com a Boca

 

(... ... ...)

 

"Porque o SENHOR é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade estende-se de geração em geração."

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